Ele amava sua esposa e não queria iniciar um relacionamento amoroso com a colega, nem expressou a ela seus sentimentos. Ainda assim, ele não conseguia parar de pensar nela.
Pode parecer um crush, mas Bellamy usa outra
palavra para definir a situação: limerência.
Cunhada como termo da psicologia nos
anos 1970, a limerência é uma conexão intensa, desgastante
e, muitas vezes, obsessiva a outra pessoa, diferente de
outros sentimentos amorosos, segundo Bellamy e outros pesquisadores.
"A limerência é mais bem descrita como um
estado de espírito alterado", explica ele.
No começo, parece fantástico, segundo o cientista. Bellamy descreve a
limerência como uma euforia natural, que aumenta a energia e o otimismo.
"Por isso você se vicia. Seus pensamentos voam e você simplesmente
se sente mais otimista e eufórico", afirma ele.
O Google Trends indica que
o interesse mundial pela limerência na internet vem aumentando desde 2020.
Houve também um aumento do material sobre a limerência disponível
online, como discussões e blogs que lidam com a questão de quando e por que o
amor pode se tornar obsessivo e o que as pessoas afetadas podem fazer a
respeito.
"A limerência é algo que acontece conosco", de forma que pode
ser involuntária, afirma a psicóloga Dorothy Tennov (1928-2007). Ela cunhou o
termo no seu livro de 1979, Love and Limerence: The Experience of Being in Love ("Amor
e Limerência: A Experiência de Amar", em tradução livre).
Depois de realizar mais de 300
entrevistas sobre o amor romântico, Tennov identificou um fenômeno
que, até então, aparentemente não tinha denominação: um desejo involuntário,
intrusivo e irresistível por outra pessoa.
Nas pesquisas psicológicas, essa pessoa, a obsessão, é conhecida como
objeto limerente.
Ser limerente não significa, necessariamente, buscar a outra pessoa ou
se sentir destinado a ter sua atenção. Mas as pesquisas indicam que, em alguns
casos, a limerência tem potencial de se desenvolver até se tornar um comportamento
prejudicial, como stalking.
Tennov escreveu que uma experiência ou "episódio" de
limerência pode acontecer apenas uma vez ou em diversas ocasiões ao longo da
vida de uma pessoa. Calcula-se que um episódio médio dure entre 18 meses e três anos, mas alguns podem durar mais
tempo.
Mas o mais importante, segundo Tennov, é que, se a limerência não for controlada, ela pode trazer impactos
devastadores para a pessoa envolvida.
Bellamy descreve a limerência como uma experiência estressante.
"Pude ver claramente", ele conta, sobre o seu episódio
limerente.
"Intelectualmente, não há uma boa conclusão e eu não quero que isso
aconteça. Mas simplesmente não consigo controlar minhas emoções."
Ele destaca que, ao chegar a este ponto, pode começar a parecer assustador,
pois "você se sente impotente" e fora de controle.
O lampejo
Como você sabe se é limerente e não está fascinado ou apaixonado de
forma mais convencional por aquela pessoa?
Um aspecto crucial da limerência é que ela alimenta uma sensação de
incerteza, segundo Bellamy. Ele escreveu um livro sobre a limerência e sua
experiência, intitulado Smitten:
Romantic Obsession, the Neuroscience of Limerence, and How to Make Love Last ("Atraído:
a obsessão romântica, a neurociência da limerência e como fazer o amor
durar", em tradução livre).
Em uma situação amorosa não limerente, a pessoa que está apaixonada por
alguém, normalmente, vai além do estágio inicial de incerteza e se sente
aliviada, feliz e segura, quando descobre que é correspondida (ou se sente
triste, quando seus sentimentos não são recíprocos).
Mas a pessoa limerente tende a ficar presa no estágio de incerteza,
desejo e esperança, segundo os pesquisadores.
A incerteza é "realmente uma das principais forças que a levam a se
desenvolver até se tornar o que eu chamaria de 'dependência', em que você
literalmente fica em um estado de desejo constante", explica Bellamy.
Ele chama esta sensação de incerteza de "lampejo".
Basicamente, é um lampejo de esperança de possível reciprocidade ou conexão com
a pessoa desejada, embora não necessariamente na forma de um relacionamento.
"Algumas dessas pessoas nem mesmo querem, necessariamente, um
relacionamento sexual ou amoroso com a outra pessoa. Eles querem apenas que
seus sentimentos sejam recíprocos", explica o psicólogo
cognitivo-comportamental Ian Tyndall, da Universidade de Chichester, no Reino
Unido.
Quanto mais alto o grau de incerteza, mais a pessoa limerente irá desejar a reciprocidade, ainda que também receando
a rejeição.
Sabe-se que a limerência causa sofrimento
e prejudica a produtividade das pessoas afetadas, a ponto de que os
limerentes podem começar a se negligenciar, segundo Tyndall.
Eles podem começar a descuidar da alimentação, do sono e da higiene
pessoal, não conseguir se manter no emprego e negligenciar os outros
relacionamentos com a família, amigos ou irmãos.
"Eles tendem a ficar presos no passado, pensando nas suas interações anteriores com aquela pessoa,
tentando ruminar e pensar no significado daquela interação", explica ele.
"Seu pensamento fica total e absolutamente preso com a pessoa, que
domina tanto a sua vida que não sobra espaço para mais nada."
É isso que diferencia a limerência do fascínio, que é outro componente do amor romântico, caracterizado
pela natureza irresistível e pela intensidade dos
estágios iniciais de um relacionamento amoroso.
O fascínio ocorre no início de muitos relacionamentos amorosos e,
normalmente, dura cerca de três a seis meses, às vezes até um ano, segundo
Tyndall.
Mas "normalmente, ele traz muito menos consequências negativas para
a saúde física e mental das pessoas", segundo ele, enquanto a limerência é
muito mais intensa.
"Quando você está fascinado por alguém, você não pensa obsessivamente
em cada sinal de emoção, quando há contato visual ou uma sobrancelha
levantada... Você não tende a analisar a linguagem corporal da pessoa no mesmo
nível de alguém que é limerente."
A limerência também é um pouco diferente da paixão romântica, segundo os
pesquisadores.
A paixão romântica envolve um desejo de intimidade e proximidade com
outra pessoa, não apenas a intimidade física, mas conexão e intimidade
emocional. "Conhecer e ser conhecido por aquela pessoa", segundo a
professora Kathleen Carswell, do Departamento de Psicologia da Universidade de
Durham, no Reino Unido.
Mas "uma pessoa limerente não sente apenas forte desejo de ter
intimidade com aquela pessoa. Ela também ficará ruminando obsessivamente sobre
aquele indivíduo", explica ela.
Carswell indica que pode haver certas coincidências entre a paixão
romântica e a limerência. Afinal, a paixão romântica também pode ter um
componente ruminante e obsessivo, similar à dependência.
"Já se descobriu que a paixão romântica influencia o sistema dopaminérgico, ou de recompensas do
cérebro", explica Carswell, "e alguém com alta limerência ou altos
níveis do componente obsessivo pode ser considerado alguém com
dependência."
Nem todos concordam com esta visão de que a limerência apresenta certas
similaridades com outras formas de amor e romance.
Dois pesquisadores propuseram seu próprio modelo de limerência em 2008.
Eles defendem que ela não é intercambiável com
o amor e que ambos existem de forma independente.
Para eles, a limerência é "negativa, problemática e
prejudicial".
A limerência é única?
Ainda sabemos pouco sobre a limerência.
Não sabemos ao certo nem mesmo quantas pessoas têm essa experiência, já
que as amostras dos estudos são pequenas. E ela não é formalmente reconhecida
como uma condição psicológica para a qual se possa buscar tratamento.
Alguns pesquisadores especulam que
ela possa estar relacionada a transtornos de
apego ou outras condições de saúde mental como TOC, TDAH ou TEPT. Mas existem poucas pesquisas sobre essas
possíveis relações.
Por outro lado, Tyndall acredita que este tema vem ganhando proeminência
no campo da psicologia.
Ele e seus colegas desenvolveram um questionário
sobre limerência. Mais de 600 pessoas que já tiveram ou vivenciam a
limerência responderam às questões.
As respostas indicaram que, embora a limerência seja associada a um
estilo de apego ansioso, não houve grande correlação.
A limerência é "uma condição debilitante muito mais profunda"
que o apego ansioso, explica Tyndall.
Alguns participantes afirmaram que a limerência "veio do
nada", segundo o pesquisador. Eles não relataram baixa autoestima ou
amor-próprio anteriormente.
Da mesma forma, os resultados do estudo indicam que as pessoas com
limerência, normalmente, não são socialmente ansiosas, mas sentem muita
ansiedade em relação à pessoa objeto da limerência.
Apesar de serem obsessivos sobre qualquer interação e desejarem
interagir novamente com a outra pessoa, quando ficam frente a frente com ela, a
intensidade pode ser tão grande que eles podem até sair correndo.
Um dos possíveis impactos negativos da limerência, destacado por Dorothy
Tennov no seu segundo livro, de 2005, é
que ela pode levar as pessoas a outros comportamentos antissociais obsessivos,
como stalking.
Mas a limerência por si só não é uma patologia, nem foi associada a
transtornos de personalidade, segundo a professora de ciberpsicologia Emma
Short, da Universidade Metropolitana de Londres.
"A limerência, aparentemente, é uma conexão excepcional,
relacionada àquele indivíduo específico e o que ele significa para você,
emocionalmente falando", explica ela. "Parece ser um estado de
dependência daquela pessoa que, de alguma forma, despertou aquilo em
você."
Já o stalking é diferente,
segundo Short. É como se você começasse a projetar seus sentimentos sobre a
outra pessoa, imaginando que você tem direito a ela ou que ela sente o mesmo
que você.
Um estudo indica que até 72% dos
stalkers têm algum tipo de diagnóstico psicopatológico.
"A maioria das pessoas é protegida por sentimentos de empatia pelos
demais e por limites claros sobre o que é sua experiência emocional e o que é a
realidade", explica Short.
"Existe uma integridade pessoal em relação à limerência. Ela fica
contida e se sabe ao certo que ela só vem de dentro."
No seu estudo, Short e seus colegas concluíram que,
embora a limerência possa ter traços comuns com o stalking, os indivíduos
limerentes ainda não progrediram — e, talvez, nunca progridam — para manter
comportamentos prejudiciais em relação à outra pessoa.
Amor e limerência
Considerando sua natureza potencialmente perturbadora e obsessiva, a
limerência pode levar a um relacionamento mútuo saudável?
No caso de Tom Bellamy, foi o que aconteceu entre ele e sua esposa —
que, na verdade, também é limerente.
A BBC entrou em contato com a esposa de Bellamy para esta reportagem.
Ela concordou com o relato do marido e aceitou sua publicação.
"Este relacionamento funcionou", ele conta. "Nós nos
apaixonamos, por assim dizer, de forma adequada — um amor clássico, baseado no
respeito mútuo, afeição mútua, cuidado mútuo e desejo, o que é
importante."
Bellamy nunca contou à sua colega sobre seus sentimentos limerentes, mas
ele os confidenciou à sua esposa — o que ele considera ter sido decisivo.
Mas como ele se livrou da limerência pela sua colega de trabalho?
"Basicamente, eliminei pela raiz", segundo ele.
Sua experiência demonstrou que evitar o contato com a pessoa pode ajudar
a reduzir gradualmente o estado de dependência.
Tennov também conta no seu livro que a limerência pode desaparecer aos
poucos se o contato for cortado ou se houver rejeição pura e simples.




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