sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

DE OLHO NA LÍNGUA – Prof. Antônio da Costa (Do Jornal Correio da Semana - Sobral-CE - Sábado - 21.02.26)

Pode-se voltar atrás?

Sem dúvida, pode-se. Voltar atrás significa retratar-se, mudar de opinião, e não constitui redundância. Por isso é que: “palavra de rei não volta atrás”. Redundante é a construção “voltar para trás”, porque não se volta senão para trás. Mas pode-se perfeitamente, e sem nenhum problema, virar para trás, porque também se vira para o lado, para a frente, etc. Ex.: Alguém virou a placa para trás; Virem-se para a frente, meninos!; O barulho foi grande, mas ninguém sequer se virou para o lado.

Inteirar (Erro de pronúncia)

Há um grupo de verbos ditongados que bem poucos conjugam corretamente: inteirar, roubar, estourar, peneirar e outros semelhantes. É necessário pronunciar o ditongo e não o reduzir a uma vogal apenas. Erram os que dizem: intéro, intére, penéro, penére, róbo, róbe, estóro, estóre. O correto é: inteiro, inteire, inteiras, peneiro, peneire, roubo, roube, estouro, estoure, etc. Um pouco de cuidado e a Língua Portuguesa não será tão deturpada em lábios brasileiros.

Melhor boa vontade

É correto dizer-se: na melhor boa vontade? À primeira vista parece haver erro porque “melhor” já é comparativo de bom e já estaria o simples grau positivo eliminado pela presença do comparativo de superioridade. Acontece, porém, que a expressão “boa vontade” como “boa-fé” de tão repetida já não representa aos olhos da maioria grau algum. E os melhores escritores não trepidaram em escrever “na melhor boa-fé, também não tremerão de medo diante da outra: de melhor boa vontade. Camilo Castelo Branco, por exemplo, escreveu: “Isso parece-me demais! Retorquia a tia com a melhor boa-fé”. (Mistério de Lisboa, I, Cap. 17).

Mais bom / Mais boa

Quando se comparam qualidades da mesma pessoa ou coisa, é permitido empregar-se o comparativo analítico ‘’mais bom” e “mais boa”. O clássico Bernardes aqui está para valer-nos: “Tornou o santo com semblante grave: Madre minha, vós sois mais justa que boa; e convém serdes mais boa que justa”. (Nova Floresta, II, 213). Quando se comparam qualidades de pessoas ou coisas diferentes, então, sim, exige-se o comparativo sintético “melhor”: Esta Madre era melhor do que aquela outra.

Não confunda rascunho com esboço!

Rascunho é o primeiro lançamento de linhas, as primeiras ideias de uma obra que se materializa. Esboço é o rascunho mais perfeito, porém, não acabado. Ao escrever um livro, seu autor primeiro colige as ideias e faz um rascunho. Quando lhes dá forma, porém, não definitiva, diz-se que tem o esboço da obra pronto.

Secreto e Clandestino (Diferença)

Secreto é tudo aquilo que ninguém conhece ou sobre o qual sabem. Clandestino é tudo que se faz às escondidas, fora da lei, sem que ninguém o conheça. Assim, nem tudo o que é secreto é clandestino, mas tudo o que é clandestino é secreto. O clandestino sempre é ilegal. As sociedades ditas secretas nada mais são que clandestinas, porque não têm amparo legal. Uma emissora de rádio pode ser secreta e legal. A clandestina sempre será ilegal, funcionando sempre em lugar ermo.

Antes de mais nada (Isso não é um exagero?)

Exagera quem só diz bobagem: o que você disse (antes de mais nada) é uma grande bobagem, não significa absolutamente coisa nenhuma essa expressão. Nem os filósofos contemporâneos a explicam. Por isso, convém substituí-la por “antes de qualquer coisa” ou, então; “antes de tudo”.

Existe o deputado de Goiás, o deputado da Bahia?

Não. Existe apenas deputado por Goiás, deputado pela Bahia. Assim como senador por Goiás e senador pela Bahia. Deputado e senador regem “por” e não “de”.

 

(*) Professor Antônio da Costa é graduado em Letras Plenas, com Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Contato: (088) 99373-7724.

 

 

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