sexta-feira, 13 de março de 2026

DE OLHO NA LÍNGUA - Prof. Antônio da Costa (Do Jornal Correio da Semana - Sobral-CE - Sábado - 14.03.26)

Que curiosidade traz palavra “tratante”

Até o século XVI, TRATANTE era um título que muito honrava os grandes comerciantes. Todo homem de negócios que se destacasse na sua profissão recebia o honroso título de “tratante”, então altamente dignificante.

Hoje, porém, tratante já não é termo elogioso. Ao contrário, define o indivíduo velhaco, espertalhão, vigarista. Por quê? Porque, a partir de dado momento, os comerciantes começaram a mudar de atitude… Esse é mais um exemplo de evolução semântica/mudança linguística. 

Comercializar ou Comerciar?

COMERCIALIZAR é tornar comercial ou fazer uma espécie de comércio; tornar objeto de comércio ou negócio; colocar no mercado à venda; fazer entrar no tráfego comercial. Exs.: É proibido comercializar voto; Vou comercializar minha invenção; Dignidade é coisa que não se comercializa; As prostitutas comercializam o corpo.

COMERCIAR tem estes dois principais significados: Realizar operações de compra e venda de; e é o mesmo que negociar. Exs.: Os agricultores comerciaram toda a produção de milho a um bom preço; Comércio de frutas e legumes no Ceasa (Cuidado! É no Ceasa mesmo, e não na Ceasa como geralmente os descuidados dizem); Ele sempre comerciou carros usados; Os sírios e seus descendentes, no Brasil, gostam de comerciar com tecidos e armarinhos – ter relações comerciais. 

Cliente ou freguês (Qual a diferença?)

Cliente é a pessoa que utiliza os serviços de um profissional liberal. Freguês é aquele que frequentemente compra coisas numa mesma loja, num mesmo armazém, num mesmo supermercado, etc. ou aquele que costuma ir sempre ao mesmo bar, restaurante, etc. A palavra é estrita ao comércio, seja legal, seja ilegal.

Assim, travestis e prostitutas têm fregueses. Engenheiros, advogados, dentistas, médicos, arquitetos, etc. ou quaisquer outros profissionais liberais têm clientes, e não fregueses. Jocoso é imaginar um advogado dizendo que têm muitos “fregueses”, embora muitos não vejam jocosidade no oposto: Um comerciante dizer que tem muitos “clientes”. A graça é a mesma. 

Negociata suja (Redundância?)

Visível redundância: Há negociata que não seja suja? Um deputado, todavia, da tribuna, disse recentemente que não se envolvia em negociata “suja”. Verdade, deputado? Talvez essa figura impoluta acredite que exista negociata “limpa. 

Existe em nossa Língua a expressão “À medida em que”?

Nem essa nem todas as vezes em que. Os nossos jornalistas, todavia, as empregam constantemente: forma e fundo; conjuntura e estrutura; imaginário e real. “Uma nítida diferenciação entre esses planos começa a evidenciar-se à medida em que evolui o plano Collor. (Folha de São Paulo); “Todas as vezes em que a televisão mostrou homens e mulheres nus...” (VEJA). Nossa língua possui “à medida que” e “todas as vezes que” ou “toda vez que”. 

Serpente “venenosa” é expressão redundante?

É. Toda serpente é venenosa. Convém não confundir cobra com serpente. A cobra pode ser venenosa ou não; a serpente sempre é venenosa. Dia destes um canal de televisão nos mostrou um documentário sobre cobras e seu narrador falou várias vezes em serpente “venenosa”. Pode não ter levado picada da serpente, mas acabou levando ferroada aqui... 

Féria/Férias (Qual a diferença?)

FÉRIA é dinheiro apurado no dia de trabalho: Apurou a féria e foi para casa. FÉRIAS (no plural) são descanso, repouso e exige verbo e determinantes no plural: As férias; Boas férias; Merecidas férias; Férias coletivas; Férias felizes; Suas férias foram boas? Todo bom professor deve desejar felizes férias a seus alunos. 

(*) Professor Antônio da Costa é graduado em Letras Plenas, com Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Contato: (088) 99373-7724.

 

 

 

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