Para muitos, esse retorno é uma
surpresa. Ao longo dos últimos 50 anos, a psicanálise — movimento intelectual e
prática terapêutica criada por Sigmund Freud (1856–1939) na Viena de 1900 — foi rejeitada e
menosprezada em muitos círculos científicos.
Especialmente no mundo anglófono
(países de língua inglesa), o avanço da psicologia comportamental e a expansão
da indústria farmacêutica empurraram terapias baseadas na fala, como a
psicanálise, para as margens.
Mas há uma história global mais
complexa. Durante a vida de Freud, foram criados 15 institutos psicanalíticos
em todo o mundo, incluindo os da Noruega, da Palestina, da África do Sul e
do Japão. Em várias partes do planeta — de
Paris a Buenos Aires, de São Paulo a Tel Aviv —, a psicanálise
floresceu ao longo do século 20.
Em toda a América do Sul, ela
continua a exercer grande influência clínica e cultural. Na Argentina, é tão popular que se brinca que
não se embarca em um voo para Buenos Aires sem que haja ao menos um
psicanalista a bordo.
Há várias razões para a
psicanálise ter se tornado popular em alguns países e não em outros. Uma delas
está ligada à história da diáspora judaica no século 20.
Com a expansão do Terceiro Reich,
muitos psicanalistas e intelectuais judeus fugiram da Europa Central antes do
Holocausto. Cidades como Londres, que acolheu Freud e toda a sua família, foram
culturalmente transformadas por esse fluxo de refugiados.
Mas há outro fator, talvez menos
evidente: a ascensão do autoritarismo. A psicanálise pode ter surgido e se
difundido no contexto da Europa em guerra, mas sua popularidade cresceu em
paralelo a crises políticas.
Resposta à opressão
Veja o caso da Argentina. À
medida que o peronismo autoritário de esquerda deu
lugar a uma "guerra suja" apoiada pelos Estados Unidos, esquadrões paramilitares
sequestraram, mataram ou fizeram "desaparecer" cerca de 30 mil
ativistas, jornalistas, líderes sindicais e dissidentes políticos. Perda,
silêncio e medo passaram a marcar o mundo emocional de muitos.
Ao mesmo tempo, porém, a
psicanálise — com seu interesse por trauma, repressão, luto e verdade inconsciente
— tornou-se uma forma significativa de lidar com a opressão.
Espaços de escuta e fala sobre
trauma e perda passaram a funcionar como uma estratégia de resposta — e talvez
até de resistência — a esse desastre político. Em uma cultura de mentiras de Estado
e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade era um ato radical.
Muitos dos primeiros seguidores
de Freud usaram a psicanálise de maneira semelhante.
Diante dos horrores inexplicáveis
do fascismo europeu, pensadores como Wilhelm Reich, Otto Fenichel, Theodor
Adorno e Erich Fromm viam a psicanálise, frequentemente associada ao marxismo
clássico, como uma ferramenta para compreender como se formam e se desejam
personalidades autoritárias.
Do outro lado do mundo, na
Argélia, o psiquiatra e ativista anticolonial Frantz Fanon recorreu à
psicanálise para denunciar os regimes raciais opressivos do colonialismo
francês. Para todos esses médicos e filósofos, ela era uma ferramenta essencial
de resistência política.
Algo semelhante parece estar
acontecendo hoje. À medida que novas formas de autoritarismo multinacional
emergem, imigrantes são demonizados e genocídios são transmitidos ao vivo, a
psicanálise volta a ganhar força.
Uma forma de dar sentido ao que
parece não ter sentido
Para alguns, neuropsicanalistas
como Mark Solms forneceram os elementos necessários para retomar a psicanálise.
Em seu novo livro, The
Only Cure: Freud and the Neuroscience of Mental Healing (A Única
Cura: Freud e a Neurociência da Cura Mental, em tradução livre), Solms usa
a neurociência — especialmente seu trabalho sobre os sonhos — para argumentar
que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o início.
Segundo Solms, embora possam ser
eficazes no curto prazo, medicamentos oferecem apenas soluções temporárias.
Somente os tratamentos psicanalíticos, afirma ele, proporcionariam efeitos
duradouros.
Solms faz parte de um grupo
crescente de clínicos e intelectuais cujo trabalho recolocou a psicanálise em
evidência cultural. Enquanto Solms se aproxima da neurologia, outros, como
Jamieson Webster, Patricia Gherovici, Avgi Saketopoulou e Lara Sheehi,
recolocam a dimensão política da psicanálise no centro do debate.
O trabalho deles mostra como
conceitos da psicanálise — o inconsciente, a "pulsão de morte", a
bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e a repressão — ajudam a
interpretar o momento contemporâneo, principalmente quando outras teorias se
mostram insuficientes.
Em um mundo de crescente
mercantilização, a psicanálise resiste a definições comercializadas de valor.
Ela valoriza o tempo profundo em
um contexto de atenção cada vez mais fragmentada e insiste na importância da
criatividade e da conexão humanas em um cenário de saturação por inteligência artificial.
Também questiona concepções
convencionais de gênero e identidade sexual e prioriza as experiências
individuais de sofrimento e desejo.
As razões para o ressurgimento da
psicanálise refletem aquelas que impulsionaram suas ondas anteriores de
popularidade: em momentos de instabilidade política, violência de Estado e
traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar sentido ao que parece não
ter sentido.
A psicanálise fornece um quadro
para compreender como impulsos autoritários se enraízam nas subjetividades
individuais e se disseminam pelas sociedades.
Além disso, em uma era dominada
por soluções rápidas e intervenções farmacológicas na saúde mental, a
psicanálise insiste no valor de uma atenção prolongada à complexidade humana.
Ela se recusa a reduzir o
sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos no cérebro ou a sintomas a serem
apenas controlados. Em vez disso, trata o mundo interno de cada indivíduo como
algo digno de exploração profunda.
O interesse coletivo renovado
pela psicanálise também está desafiando o próprio campo a se transformar.
Suposições antigas, como a ideia de neutralidade do terapeuta ou de que a
heterossexualidade é a norma, vêm sendo questionadas.
A prática psicanalítica também
está sendo repensada em diálogo com diversos movimentos de justiça social e
solidariedade. É um momento em que muitos buscam redefinir o que a psicanálise
pode ser.
Resta saber se esse renascimento
vai perdurar. Mas, por ora, enquanto as crises políticas se intensificam e as
abordagens terapêuticas tradicionais parecem insuficientes, as ideias de Freud
sobre a psique humana encontram novos públicos ávidos por compreender a obscuridade
dos nossos tempos.
(Fonte: BBC)



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