Segundo
Thiago Nicodemo, professor de História da Unicamp e idealizador do memorial, a
ideia partiu do conceito de memória digital no mundo contemporâneo, objeto de
estudo dele na época em que lecionava na Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). E, por coincidência, o ponto de partida desses registros de memória
eram eventos catastróficos. “[Estava estudando] como o fenômeno da captura de
informações via dispositivos, como celulares ou câmeras digitais, estava
produzindo uma memória muito importante que precisava ser guardada e
interpretada, no futuro, pelos historiadores. E também as formas de circulação
dessa memória, pelas redes sociais, WhatsApp, Instagram, tantos dispositivos
que a gente tem para fazer isso. E a questão era: como que a gente vai poder
contar as histórias do futuro?”, explica ao BdF Entrevista desta quarta-feira (6).
“Quando a
pandemia estourou, eu já sabia que ia ser importante. Eu já
tinha uma sensação de que ia durar bastante, que não ia ser uma coisa
totalmente leve”, conta.
Nicodemo
conta que, com a ajuda dos seus alunos, passou a monitorar grupos sociais que
estavam produzindo memória, segundo ele, “quase como uma forma terapêutica,
como uma forma de sobrevivência para lidar com aquilo”. O acompanhamento durou
quase seis anos e o resultado foi o material que forma o memorial.
Ele
cita também quem eram os “grupos sociais” acompanhados: “Profissionais de saúde,
enfermeiros, policiais, indígenas, professores, alunos, grupos sociais que
queriam guardar relatos. E esses relatos aconteciam de forma múltipla também.
Então poderiam ser relatos escritos, poderiam ser vídeos, relatos orais e
poderiam transitar também por mídias diferentes”.
Thiago
Nicodemo explica que o memorial, embora se trate de um evento que já passou, é
vivo e pode ir sendo alimentado à medida que esses registros forem aparecendo e
a sociedade for sentindo a vontade de contribuir. “É uma infraestrutura
flexível que consegue incorporar coleções que vêm da sociedade. Então, duas
características importantes: eu não invento as coleções, elas já existem. A
gente só está achando uma solução para pegar a voz dos brasileiros, preservar e
dar acesso a longo prazo; e a outra é que ela é infinita, porque, apesar de o
evento já ter acontecido, ele é elaborado e reelaborado, e, cada vez que eu
falo que essa solução existe, aparece mais gente querendo doar informações. Mas
a característica principal é que a gente mantém a personalidade, a história da
própria coleta. Então ela é uma espécie de ‘arquivo de arquivos'”, continua.
O
historiador também pondera que o memorial serve para combater a cultura do
esquecimento, muito comum na sociedade brasileira. “Você pensa na história
social do esquecimento e do apagamento. Quantos documentos se perdem, quantas
memórias se perdem? E o quão isso é relacionado com lutas sociais, com disputas
e com mecanismos de invisibilidade na sociedade brasileira? Quanto
se perdeu da escravidão de documentos? Inclusive, a escravidão foi
pautada por apagamentos deliberados e queima de documentos”, avalia.
“Quantos
por cento de uma memória difícil é preservada perto da imensidão de informações
que se perdem? Então, a perda, o esquecimento, eles são parte. Só que ele
também, de algum jeito, ele é sócio do processo de apagamento. Existe uma
intenção por trás do lembrar, do esquecer. Se alguma coisa foi preservada,
é porque alguém agiu em favor dessa preservação; senão, ela teria sido perdida.
No mundo digital, essa situação se agrava, porque a gente não tem mais a
governança sobre as nossas memórias. Elas estão nos aplicativos, nas nuvens,
nos contratos. Então a gente não sabe mais como preservar”, analisa Nicodemo.
(Brasil
de Fato)

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