quinta-feira, 7 de maio de 2026

‘Existe uma intenção no lembrar e também no esquecer’, diz criador de memorial da pandemia

Isolamento social, aulas dentro de casa, milhares de mortes por dia: a pandemia da covid-19 deixou traumas profundos no Brasil e no mundo, que são sentidos até os dias de hoje, com transformações nas relações de trabalho e interpessoais que ficaram marcadas para sempre.

A partir dessa inquietação, surge o Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, um site que reúne materiais produzidos por pessoas comuns, como diários escritos no início da pandemia e outros registros fotográficos.

Segundo Thiago Nicodemo, professor de História da Unicamp e idealizador do memorial, a ideia partiu do conceito de memória digital no mundo contemporâneo, objeto de estudo dele na época em que lecionava na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E, por coincidência, o ponto de partida desses registros de memória eram eventos catastróficos. “[Estava estudando] como o fenômeno da captura de informações via dispositivos, como celulares ou câmeras digitais, estava produzindo uma memória muito importante que precisava ser guardada e interpretada, no futuro, pelos historiadores. E também as formas de circulação dessa memória, pelas redes sociais, WhatsApp, Instagram, tantos dispositivos que a gente tem para fazer isso. E a questão era: como que a gente vai poder contar as histórias do futuro?”, explica ao BdF Entrevista desta quarta-feira (6).

“Quando a pandemia estourou, eu já sabia que ia ser importante. Eu já tinha uma sensação de que ia durar bastante, que não ia ser uma coisa totalmente leve”, conta.

Nicodemo conta que, com a ajuda dos seus alunos, passou a monitorar grupos sociais que estavam produzindo memória, segundo ele, “quase como uma forma terapêutica, como uma forma de sobrevivência para lidar com aquilo”. O acompanhamento durou quase seis anos e o resultado foi o material que forma o memorial.

Ele cita também quem eram os “grupos sociais” acompanhados: “Profissionais de saúde, enfermeiros, policiais, indígenas, professores, alunos, grupos sociais que queriam guardar relatos. E esses relatos aconteciam de forma múltipla também. Então poderiam ser relatos escritos, poderiam ser vídeos, relatos orais e poderiam transitar também por mídias diferentes”.

Thiago Nicodemo explica que o memorial, embora se trate de um evento que já passou, é vivo e pode ir sendo alimentado à medida que esses registros forem aparecendo e a sociedade for sentindo a vontade de contribuir. “É uma infraestrutura flexível que consegue incorporar coleções que vêm da sociedade. Então, duas características importantes: eu não invento as coleções, elas já existem. A gente só está achando uma solução para pegar a voz dos brasileiros, preservar e dar acesso a longo prazo; e a outra é que ela é infinita, porque, apesar de o evento já ter acontecido, ele é elaborado e reelaborado, e, cada vez que eu falo que essa solução existe, aparece mais gente querendo doar informações. Mas a característica principal é que a gente mantém a personalidade, a história da própria coleta. Então ela é uma espécie de ‘arquivo de arquivos'”, continua.

O historiador também pondera que o memorial serve para combater a cultura do esquecimento, muito comum na sociedade brasileira. “Você pensa na história social do esquecimento e do apagamento. Quantos documentos se perdem, quantas memórias se perdem? E o quão isso é relacionado com lutas sociais, com disputas e com mecanismos de invisibilidade na sociedade brasileira? Quanto se perdeu da escravidão de documentos? Inclusive, a escravidão foi pautada por apagamentos deliberados e queima de documentos”, avalia.

“Quantos por cento de uma memória difícil é preservada perto da imensidão de informações que se perdem? Então, a perda, o esquecimento, eles são parte. Só que ele também, de algum jeito, ele é sócio do processo de apagamento. Existe uma intenção por trás do lembrar, do esquecer. Se alguma coisa foi preservada, é porque alguém agiu em favor dessa preservação; senão, ela teria sido perdida. No mundo digital, essa situação se agrava, porque a gente não tem mais a governança sobre as nossas memórias. Elas estão nos aplicativos, nas nuvens, nos contratos. Então a gente não sabe mais como preservar”, analisa Nicodemo.

(Brasil de Fato)

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