A reunião vinha sendo negociada desde janeiro, chegou a ser prevista para março, mas acabou acontecendo em um momento em que a chamada "química excelente" entre os dois líderes vinha dando sinais de estremecimento.
O encontro também ocorre em um período em que os
dois presidentes enfrentam momentos delicados domesticamente.
No Brasil, Lula sofreu, em uma semana, duas
derrotas políticas no Congresso Nacional com a rejeição da indicação de Jorge Messias para
uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto ao projeto de lei que reduziu penas
para condenados por crimes cometidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Além disso, pesquisas de intenção de voto
colocam Lula em empate técnico com os principais candidatos de
direita, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho
do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Por outro lado, Trump enfrenta uma crise de popularidade
causada pelo prolongamento da guerra contra o Irã e a economia do país
já começa a dar sinais negativos com aumento da inflação causada, entre outros
motivos, pela subida do preço dos combustíveis gerada pela crise no Oriente Médio.
E em meio a um cenário delicado "em
casa", Lula e Trump se reunirão com a expectativa de emplacarem agendas
positivas de lado a lado, ainda que, em alguns pontos, os interesses de ambos
pareçam ser antagônicos.
Diante desse quadro, a BBC News Brasil ouviu
especialistas em relações internacionais e fontes ligadas ao governo brasileiro
para entender o que é que Trump e Lula querem ou têm a ganhar com esse
encontro.
Eles afirmam que, do lado brasileiro, o governo tem
o objetivo de derrubar o restante das tarifas que ainda vigoram contra a importação de produtos
brasileiros.
Além disso, Lula também quer frear ou convencer o
governo norte-americano a encerrar investigações comerciais que miram a
economia brasileira, entre elas uma que apura supostas irregularidades envolvendo o Pix.
As pautas brasileiras, porém, não seriam apenas
econômicas, segundo os especialistas.
Na avaliação deles, um outro objetivo do governo
brasileiro é manter aberto um canal de comunicação direto com Trump, tentando
diminuir a influência da ala bolsonarista radicada nos Estados Unidos a poucos
meses das eleições presidenciais.
Do lado norte-americano, Trump deverá usar o
encontro para mostrar uma imagem de relativo prestígio ao receber mais um líder
na Casa Branca em um momento em que a guerra contra o Irã é contestada nacional
e internacionalmente, além de possibilitar o aprofundamento de negociações em
áreas consideradas estratégicas para os EUA como o barateamento do preço da
carne bovina e o acesso a reservas de minerais estratégicos.
Uma pesquisa realizada pela Reuters e pelo
Instituto Ipsos divulgada em abril apontou que a taxa de aprovação de Trump
caiu para o nível mais baixo de seu mandato.
Entre os fatores apontados para este resultado está
o descontentamento com o custo de vida e a guerra contra o Irã.
O que Lula quer?
"Lula tem uma eleição geral para enfrentar.
Trump tem eleições legislativas de meio de mandato, mas a importância dos EUA
na pauta comercial do Brasil é maior do que a do Brasil para a pauta dos EUA.
Por isso, acho que essa visita tem um peso maior para Lula que para
Trump", explica.
Na avaliação do professor, os interesses mais
concretos de Lula com essa visita são econômicos.
"A questão mais concreta, evidentemente, é a
suspensão das tarifas remanescentes que existem sobre a exportação de produtos
brasileiros, especialmente a tarifa sobre a carne. Isso é algo que também
interessa, hoje, o governo norte-americano. Se o Brasil conseguir algum avanço
nisso, seria algo interessante para o governo brasileiro", diz Poggio.
O professor também avalia que o governo Lula poderá
usar o interesse dos norte-americanos nas reservas de minerais críticos como
uma espécie de "moeda de troca" à medida que o governo brasileiro,
por sua vez, quer a garantia de que investimentos em projetos minerais no
Brasil envolvam transferência de tecnologia e beneficiamento da matéria-prima
em território nacional.
Além disso, o professor avalia que o governo deverá
tentar convencer o governo norte-americano a encerrar as investigações com base
na seção 301 da Lei de Comércio que atinge o Pix brasileiro.
A preocupação do Brasil com o tema começou em julho
do ano passado, na mesma época em que o governo Trump impôs um tarifaço de 40%.
Naquele mês, o Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) abriu uma investigação
com base na seção 301 da Lei de Comércio do país sobre práticas comerciais
supostamente irregulares do Brasil e incluiu o Pix entre os itens sob apuração.
Os norte-americanos afirmam que o Pix representaria
uma ameaça à atuação de empresas dos Estados Unidos que operam o mercado de
meios de pagamento. Do lado brasileiro, técnicos defendem que o sistema não
prejudica empresas norte-americanas numa tentativa de evitar sanções.
O professor de Relações Internacionais da
Universidade de Brasília (UnB), Haroldo Ramanzini Júnior, diz que o governo
também pode obter ganhos no tema do combate ao crime organizado. Esse assunto
vem sendo explorado pela oposição como uma das principais fraquezas do atual
governo.
A condução do assunto junto aos norte-americanos é
particularmente sensível porque, segundo interlocutores do presidente Lula
ouvidos pela BBC News Brasil, uma ala da administração Trump defende que os EUA
designem facções criminosas brasileiras como o Comando Vermelho e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
Ao longo dos últimos meses, técnicos e diplomatas
brasileiros vêm tentando convencer os norte-americanos a mudarem de ideia e não
procederem com a designação. O governo brasileiro teme que essa medida abra
espaço para ações militares ou policiais norte-americanas em território
brasileiro.
Para o professor Ramanzini Júnior, se Lula
conseguir convencer Trump a desistir dessa ideia, isto representará um ganho
importante para o petista.
"Isso poderá ser considerado uma vitória do
Brasil, já que setores do governo norte-americano vinham sinalizando a adoção
de uma abordagem unilateral potencialmente ameaçadora à soberania do
país", diz o professor à BBC News Brasil.
O que Trump quer?
Para o professor Poggio, parte dos interesses de
Trump convergem com os do Brasil.
"Trump quer reduzir o preço da carne.
Aparentemente, ficou evidente para ele que as tarifas sobre a carne brasileira
geraram inflação. Talvez, esse seja o principal interesse dele nesse
encontro", disse o professor.
Poggio também citou o interesse de Trump nos
minerais críticos brasileiros.
"Os EUA querem acesso privilegiado às reservas
brasileiras e algum tipo de amarração, uma espécie de garantia de fornecimento
com exclusividade do Brasil para os EUA. Neste ponto, pode haver divergência
porque o Brasil não quer se tornar fornecedor exclusivo de um país",
afirma o professor.
Para Poggio, a visita também pode gerar dividendos
políticos e simbólicos para Trump em um momento em que sua liderança
internacional é contestada, entre outros motivos, pelo prolongamento da guerra
contra o Irã.
"Com essa visita, ele consegue reforçar a
narrativa de que ele está organizando as cadeias de suprimento críticas com
grandes produtores de alimentos e minerais para conseguir competir com a China.
Ele tenta reforçar uma imagem de pragmatismo internacional aparecendo com um
líder de esquerda emblemático", diz.
A China é apontada pelo governo norte-americano
como a principal ameaça geopolítica dos Estados Unidos.
Neste aspecto, o Brasil tem sido apontado por
oficiais do governo dos EUA como um parceiro estratégico, pois além de ser um
dos principais fornecedores de alimentos do mundo, o país é detentor da segunda
maior reserva mundial de terras raras, minerais considerados essenciais para a
transição energética e para a produção de equipamentos de alta tecnologia como
telefones celulares, computadores e até mísseis.
Para o professor Ramanzini Júnior, uma aproximação
de Trump com Lula também consolida parte da Estratégia de Segurança Nacional
dos EUA, divulgada no ano passado. O documento, revisado de tempos em tempos,
colocou o hemisfério ocidental, do qual o Brasil faz parte, como uma área sobre
a qual os Estados Unidos deveriam exercer sua influência.
"Se o hemisfério ocidental constitui uma
prioridade de política externa, torna-se muito importante manter diálogo com um
país central da região, como o Brasil. Além disso, o encontro também abre
espaço para que temas de interesse dos EUA sejam colocados na agenda, como
terras raras e minerais críticos", diz o professor.
Blindagem anti-Trump?
Nos últimos meses, interlocutores do presidente
Lula vinham afirmando que um encontro entre Lula e Trump poderia ajudar o
governo brasileiro a diminuir a influência que a ala bolsonarista sediada nos
Estados Unidos tem sobre o governo norte-americano.
Esta ala é liderada pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo
empresário e jornalista Paulo Figueiredo.
A interpretação do governo é de que essa ala foi a
principal responsável por influenciar o governo Trump a impor o tarifaço sobre
produtos brasileiros em julho de 2025 sob a justificativa de que ele era uma
resposta a uma suposta "caça às bruxas" política contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
À época, Bolsonaro enfrentava um julgamento que acabou
o condenando a 27 anos de prisão por golpe de Estado e tentativa de abolição
violenta do Estado de direito. Sua defesa alega que ele é inocente.
O mal-estar causado pelo tarifaço só começou a ser
desfeito em setembro de 2025, depois que Trump e Lula se encontraram na
Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Foi nessa ocasião que Trump disse ter sentido uma
"química excelente" com Lula. A partir de então, os dois se encontraram uma vez mais, na Malásia, e
trocaram telefonemas.
Apesar disso, nos últimos meses, desentendimentos
entre os dois governos deram a impressão de que a "química excelente"
estaria abalada.
Em março, o Ministério das Relações Exteriores
(MRE) cancelou o visto concedido ao conselheiro sênior do
Departamento de Estado dos Estados Unidos para o Brasil, Darren Beattie.
Ele tentava fazer uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas segundo o
governo brasileiro, não informou seu objetivo quando solicitou a permissão de
entrada.
O segundo aconteceu em abril, quando o governo
norte-americano determinou o retorno de um delegado da Polícia Federal que atuava na
Flórida após a prisão do ex-deputado federal e ex-diretor da
Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, por agentes de imigração
norte-americanos.
Ramagem é procurado pela Justiça brasileira e foi
condenado pelo STF por crimes ligados aos atos de 8 de janeiro.
Em resposta, o governo brasileiro revogou os
acessos de agentes norte-americanos que trabalhavam junto à PF no Brasil.
No governo brasileiro, a avaliação é de que o
encontro, por si só, não seria capaz de impedir movimentos dos EUA para
influenciar as eleições de 2026, mas ao menos serviria para manter um canal
direto com Trump e não deixar que a ala bolsonarista fosse a única voz a tratar
do tema "Brasil" junto a oficiais do governo dos EUA.
O professor Ramanzini Júnior, da UnB, tem uma
avaliação semelhante.
"A visita aos EUA talvez contribua para tentar
reduzir as chances de uma interferência direta do presidente Trump nas eleições
brasileiras, mas não elimina a possibilidade de que big techs, setores do
governo e atores ligados ao MAGA atuem em favor da extrema direita e de
processos de desestabilização no Brasil", diz o professor.
Carlos Gustavo Poggio, por sua vez, diz não
acreditar que uma visita a Trump "blinde" o Brasil contra
interferências externas.
"Acho que essa visita não traz nenhum tipo de
proteção contra Donald Trump. Aprendemos neste segundo mandato que qualquer
tipo de acordo com ele não vale nada. Ele pode acordar amanhã e desfazer o
acordo que fez no dia anterior. Basta ver como ele age com a Europa e com o
Irã".
(Fonte:
BBC)



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