O Plano de Metas, conhecido pelo slogan "50
anos em cinco", priorizou áreas como energia (com a construção de
usinas hidrelétricas), transporte (com a expansão da malha rodoviária) e
indústria de base (com o estímulo aos setores de aço, petróleo e maquinaria).
No entanto, áreas como educação e alimentação não foram tão valorizadas e
receberam apenas 4,3% e 3,2% das verbas destinadas ao Plano de Metas,
respectivamente.
Paralelamente, a construção de Brasília avançava
rapidamente e simbolizava a tentativa de integrar o território nacional e
transferir o centro político do litoral para o interior. A indústria
automobilística crescia com a instalação de montadoras estrangeiras e o consumo
urbano aumentava. Nesse cenário de otimismo, a conquista da seleção liderada
por Pelé, Garrincha, Vavá e Zagallo reforçou a narrativa de um país que buscava
se apresentar como moderno, industrializado e capaz de competir
internacionalmente.
Bicampeonato
O bicampeonato conquistado no Chile, em 1962, com
um placar de três a um contra a então Tchecoslováquia, ocorreu em um momento de
instabilidade política no Brasil. Menos de um ano antes, o presidente Jânio
Quadros havia renunciado ao cargo após apenas sete meses de governo. A
saída inesperada provocou uma crise institucional que colocou em dúvida a posse
do vice-presidente João Goulart. Como uma solução negociada entre militares e
políticos, o Congresso implantou o parlamentarismo para limitar os poderes
presidenciais.
Ao mesmo tempo, o país vivia disputas entre grupos
conservadores na sociedade civil, setores nacionalistas, sindicatos e
movimentos populares, que escalavam de acordo com a situação econômica do país.
Em 1960, a inflação chegou a 30,5%, e, no ano seguinte, a 47,8%, em partes
devido ao endividamento externo herdado das políticas desenvolvimentistas do
governo JK.
As discussões sobre reformas agrária, urbana e
educacional ganhavam força e ampliavam a polarização política que culminou dois
anos depois no golpe militar de 1964. Ainda assim, em 13 de julho de 1962, João
Goulart sancionou a lei que criou o 13º salário, conhecido como gratificação de
Natal. Naquele ano, a inflação chegou a 51,6%.
Em campo, a lesão de Pelé obrigou Garrincha, mesmo
com uma febre de 38ºC, a assumir o protagonismo da equipe. Fora dele, a vitória
ajudou a criar um sentimento de unidade em um país que caminhava para uma crise
política cada vez mais profunda.
Tricampeonato
O tricampeonato de 1970 foi conquistado por quatro
a um contra a Itália em território mexicano. Pelé abriu o placar, o italiano
Boninsegna empatou, e Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto marcaram os demais
gols. O último gol, construído após uma sequência de passes envolvendo quase
todo o time, é considerado pela BBC um dos mais bonitos da
história do futebol.
Com a vitória, o Brasil tornou-se a primeira
seleção a conquistar três Copas do Mundo e ficou com a posse definitiva da Taça
Jules Rimet. Zagallo entrou para a história como campeão mundial, como jogador
e técnico, enquanto Pelé encerrou sua trajetória em Copas com três
títulos.
Comemoração do primeiro gol na final da Copa do
Mundo de 1970 / Acervo Arquivo Nacional
Fora de campo, no entanto, o Brasil vivia um dos
períodos mais repressivos de sua história. O país estava sob a ditadura
militar instaurada em 1964 e era governado pelo general Emílio Garrastazu
Médici. Desde a edição do AI-5, em 1968, o regime havia ampliado a censura à
imprensa, suspendendo garantias constitucionais e intensificado a perseguição a
opositores. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos políticos faziam
parte da rotina dos órgãos de repressão.
Ao mesmo tempo, a economia registrava altas taxas
de crescimento no período conhecido como “milagre econômico”, impulsionado por
investimentos públicos e expansão do crédito, mas ao custo político da
ditadura.
A vitória sobre a Itália foi explorada amplamente
pela ditadura militar, que associou o sucesso da equipe à ideia de grandeza
nacional. Slogans como “Ninguém segura este país” passaram a circular com
frequência, e o tricampeonato foi utilizado para fortalecer a imagem do regime
em um momento de forte repressão política.
Quarto título
O quarto título veio em 1994, nos Estados Unidos,
quando o país buscava superar uma das mais longas crises econômicas de sua
história recente. O governo de Itamar Franco havia assumido após o impeachment
de Fernando Collor de Mello em 1992, em meio a uma crise política que abalou a
confiança nas instituições. Desde os anos 1980, período que ficou conhecido
como “década perdida”, o Brasil enfrentava baixo crescimento econômico, aumento
da dívida externa e inflação crescente.
Durante mais de uma década, os brasileiros
conviveram com hiperinflação, perda acelerada do poder de compra e sucessivos
planos econômicos que fracassaram na tentativa de controlar os preços. Em
alguns períodos, a inflação ultrapassou 40% ao mês. Supermercados remarcavam
produtos diariamente e trabalhadores corriam para gastar o salário logo após o
pagamento para evitar perdas.
Em 1994, o lançamento do Plano Real começou a mudar
esse cenário. A criação da Unidade Real de Valor (URV), seguida pela introdução
da nova moeda em julho daquele ano, reduziu a inflação e trouxe maior
previsibilidade para consumidores, empresas e investidores. A estabilização
econômica passou a ser um dos principais temas do debate público. O então
ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, se tornou o principal rosto do
plano e venceu as eleições presidenciais realizadas poucos meses depois da conquista
da Copa.
No campo político, o país também vivia um momento
de consolidação democrática. A Constituição de 1988 ainda era recente e as
instituições buscavam recuperar a credibilidade após duas décadas de ditadura
militar. A eleição presidencial de 1994 foi apenas a segunda por voto direto
para presidente desde o fim do regime militar.
Dentro de campo, a seleção comandada por Carlos
Alberto Parreira chegou à Copa cercada por críticas ao estilo de jogo. A equipe
apostava em uma estratégia baseada na organização defensiva e na eficiência
ofensiva. Romário foi o principal destaque da campanha e formou com Bebeto uma
das duplas de ataque mais conhecidas da história da seleção. O Brasil terminou
o torneio invicto, sofreu apenas três gols em sete partidas e conquistou o
título após derrotar a Itália nos pênaltis na final disputada em Pasadena.
A conquista encerrou um jejum de 24 anos sem
títulos mundiais e ocorreu em um momento em que parte da população voltava a
acreditar na estabilidade econômica e institucional do país. Para muitos
brasileiros, o tetra se tornou um dos símbolos de uma década marcada pela
tentativa de deixar para trás a inflação crônica e as incertezas que marcaram
os anos anteriores.
É penta
Em 2002, quando o Brasil conquistou o
pentacampeonato na Coreia do Sul e no Japão, o país vivia um período de
transição política e econômica. O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso
chegava ao fim após oito anos marcados pela consolidação do Plano Real,
pela privatização de empresas estatais e pela ampliação da abertura da economia
brasileira ao mercado internacional. Apesar da estabilidade monetária
conquistada na década de 1990, os últimos anos do governo foram impactados por
crises financeiras internacionais que afetaram o crescimento econômico e aumentaram
a vulnerabilidade do país.
O desemprego permanecia elevado em grandes centros
urbanos e o crescimento econômico era considerado insuficiente para reduzir as
desigualdades sociais. Em 2001, o país também enfrentou uma crise energética
que levou aos apagões. A situação expôs problemas de infraestrutura e gerou
preocupações sobre os rumos da economia.
Naquele ano, a aproximação das eleições presidenciais aumentou a instabilidade nos mercados financeiros. Investidores demonstravam incerteza em relação ao cenário político e ao futuro da política econômica. O dólar alcançou níveis recordes para a época, e o governo precisou negociar apoio financeiro com organismos internacionais para reforçar a confiança dos investidores.
Nesse contexto, a seleção comandada por Luiz Felipe Scolari chegou à Copa cercada por desconfiança. O Brasil havia garantido a classificação apenas na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas e acumulava resultados que alimentavam dúvidas sobre sua capacidade de disputar o título. Paralelamente, Ronaldo retornava após graves lesões nos joelhos que o afastaram dos gramados por longos períodos e colocaram sua carreira em dúvida. Ao lado de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, no entanto, o jogador liderou uma campanha invicta que terminou com sete vitórias em sete jogos. Ronaldo encerrou o torneio como artilheiro, com oito gols, incluindo os dois marcados na vitória por dois a zero sobre a Alemanha na final.
Poucos meses depois da conquista, Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) venceu as eleições presidenciais em sua quarta
tentativa de chegar ao Palácio do Planalto. A vitória representou a primeira
eleição de um candidato do Partido dos Trabalhadores para a Presidência da
República e marcou uma mudança no comando político do país após oito anos de
governo do PSDB.
O pentacampeonato acabou se tornando um símbolo de
passagem entre dois momentos da história brasileira. De um lado, encerrava um
ciclo iniciado com o Plano Real e as reformas econômicas da década de 1990. De
outro, antecedia a chegada de um novo projeto político que passaria a ocupar
posição central no debate público nacional durante as décadas seguintes. Em um
período marcado por incertezas econômicas e expectativas de mudança, a
conquista da seleção ofereceu aos brasileiros um dos raros momentos de consenso
e celebração coletiva daquele ano.
(Brasil de Fato)





Nenhum comentário:
Postar um comentário