A obra nasceu a partir do projeto Memórias, desenvolvido em sala de aula com
estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. A proposta
incentivou os participantes a reconstruírem narrativas pessoais para além do
contexto da prisão, resgatando lembranças ligadas à infância, à família, às
amizades, às primeiras paixões e às brincadeiras de rua.
Segundo os organizadores, o processo foi
marcado por momentos de emoção e descoberta. “Alguns choravam em sala de aula
porque diziam que não tinham o que falar de bom. E aí, com o trabalho que a
gente foi fazendo a partir do uso de fotos e imagens que remetem ao passado,
eles começaram a despertar e perceber que são muito mais do que são hoje, que a
vida deles não é só isso que os levou até a prisão”, relata o professor Moacir
Silva.
Os textos revelam sentimentos como
saudade, arrependimento, esperança e desejo de recomeço. Para os educadores, a
escrita funcionou como ferramenta de expressão, cura e reconstrução da
identidade dos estudantes. Na apresentação da publicação, os professores
destacam que “a memória não é apenas um registro do que passou, mas um combustível
para a resiliência e um estímulo à reinvenção de si mesmos”.
O gênero textual de memórias foi escolhido por permitir que os estudantes
retomassem experiências afetivas muitas vezes apagadas pela violência e pela
ruptura social. “Percebemos, em grande parte dos nossos estudantes, uma certa
ruptura com o passado, como se nada do que viveram na infância e adolescência
fizesse mais sentido.
O projeto Memórias entra a partir daí com
duas funções: a de trabalhar, em sala de aula, mais um gênero textual, contemplando
o conteúdo do componente curricular língua portuguesa, e também a de promover o
resgate de memórias afetivas que de certa forma ficaram esquecidas em algum
lugar no passado”, explica Moacir.
Atualmente, a Rede Estadual de Ensino de
Pernambuco oferece educação formal em todas as unidades prisionais do estado.
São 21 escolas prisionais e três anexos, atendendo mais de seis mil estudantes
matriculados. O objetivo é promover a ressocialização e assegurar o direito
constitucional à educação para pessoas privadas de liberdade.
Entre as iniciativas desenvolvidas nas
escolas prisionais estão o Projeto Remição pela Leitura, que possibilita
redução de pena por meio da leitura e avaliação de obras literárias, e o
Programa Monitoria PE, voltado para estudantes monitores de matemática e língua
portuguesa.
Para Jeane Lima, gerente da Educação de
Jovens, Adultos e Idosos da Secretaria de Educação de Pernambuco, a educação no
sistema prisional representa uma oportunidade concreta de transformação social.
“Garantir a EJA no sistema penitenciário é mais do que cumprir uma meta
educacional. É oferecer uma chance real de transformação por meio do
conhecimento”, afirma.
Além das ações pedagógicas, a rede
estadual também tem ampliado o suporte emocional dentro das escolas prisionais.
Segundo Jeane, nove unidades já contam com analistas de psicologia escolar
integrando equipes multiprofissionais responsáveis pelo acompanhamento dos
estudantes e pelo apoio aos professores. A expectativa é que o atendimento seja
expandido gradualmente para toda a rede prisional do estado.
(Brasil de Fato)

Nenhum comentário:
Postar um comentário