Menos de um mês após os governos de Brasil e
Estados Unidos terem chegado a um acordo para negociar um impasse
envolvendo tarifas e uma investigação comercial americana,
existe a expectativa de que a Casa Branca anuncie medidas que rompam esse
acordo.Entre as acusações dos americanos
estão tarifas preferenciais e injustas, proteção inadequada dos direitos de
propriedade intelectual, falta de combate ao desmatamento ilegal e práticas que
prejudicam a competitividade das empresas no setor de comércio digital e
serviços de pagamento.
O amplo pacote de acusações vai de reclamações sobre o
Pix, sistema de pagamentos do Banco Central, até queixas sobre o
desmatamento ilegal.
No mês passado, os presidentes Luiz
Inácio Lula da Silva e Donald Trump discutiram o tema em reunião de mais de
três horas na Casa Branca.
Após o encontro, Lula disse que
equipes dos dois governos deveriam fechar uma proposta para resolver o impasse
sobre tarifas de exportação e a investigação comercial aberta pelos americanos
contra o Brasil. Segundo Lula, os dois presidentes receberiam uma nova proposta
para encerrar as desavenças em 30 dias — prazo que se encerraria no próximo
domingo (07/06).
"Eu falei assim: 'Vamos colocar
um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço [do Ministério] da
Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu ministro do Comércio, sentem em
30 dias e apresentem para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo'",
disse Lula a jornalistas logo após o encontro.
"Quem estiver errado vai ceder.
Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder."
Na semana passada, os governos dos
EUA e Brasil voltaram a entrar em atrito após o governo americano
anunciar que passará a classificar facções criminosas brasileiras como
organizações terroristas. A medida foi anunciada por Trump dois dias após um encontro no Salão
Oval com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — pré-candidato à Presidência nas
eleições de outubro e rival de Lula.
"Nós não aceitamos ser tratados
como moleques. Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta", disse Lula, sobre a
decisão americana.
O que motivou a investigação?
Segundo especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil na época em que a investigação foi lançada, a visão geral era
a de que a investigação tem caráter político e de proteção a empresas
americanas, ao mesmo tempo em que traz muitas alegações que são contraditórias
e imprecisas — embora algumas das acusações comerciais façam sentido.
"Para mim é claro que o governo
Trump está tentando dar motivação econômica para que as tarifas impostas contra
o Brasil não sejam ilegais", disse na época Guilherme Klein Martins,
professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido.
Segundo o economista, os argumentos
apresentados pelo presidente americano na carta em que anunciou oficialmente a
imposição da taxa de 50% às exportações brasileiras mostram claramente que seu
descontentamento é com o fato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ter se
tornado réu na ação que apura a tentativa de golpe de Estado e com outras
decisões do Judiciário brasileiro. Bolsonaro acabou condenado em setembro do
ano passado e está atualmente cumprindo pena de 27 anos, em prisão domiciliar.
A motivação puramente política,
porém, "poderia gerar um problema interno nos Estados Unidos", diz
Klein.i
Welber Barral, ex-secretário de
Comércio Exterior dos primeiros governos Lula, afirma que o descontentamento
americano com algumas das políticas comerciais brasileiras já existia há anos,
mas foram usados no contexto atual para justificar uma investigação nos termos
da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
Esse trecho da legislação americana
permite que o USTR realize apurações sobre práticas que supostamente prejudicam
o comércio internacional americano e determine se há ou não irregularidades. A
intenção é punir ações consideradas discriminatórias contra empresas americanas
com sanções aos países-alvo.
"A relevância econômica de
algumas dessas reclamações é muito pequena e boa parte, se não a maior parte
delas, não têm justificativa fática nenhuma", afirma Barral.
Ainda segundo o especialista em
comércio exterior, Trump já argumentou no passado que as tarifas anunciadas por
seu governo nos últimos meses contra diversos países seriam uma tentativa de
combater o déficit comercial dos EUA com essas nações. No caso brasileiro,
porém, a balança comercial é positiva para os americanos.
"Usar a seção 301 é uma forma
dos EUA se garantirem ao aplicar essas tarifas contra o Brasil", diz.
Comércio digital e serviços de
pagamento eletrônico
No documento divulgado pelo USTR
sobre a investigação comercial, uma das áreas apontadas como foco da apuração é
a de mídia social e serviços de pagamento eletrônico.
Segundo o órgão, existem evidências
de que o Brasil se envolve em diferentes "atos, políticas e práticas que
podem prejudicar a competitividade das empresas norte-americanas envolvidas em
comércio digital e serviços de pagamento eletrônico" no país.
O USTR cita um julgamento do
STF sobre regulamentação das plataformas digitais no país como um exemplo.
Segundo a instituição, a corte votou
para "tornar as empresas de redes sociais responsáveis por postagens
ilegais de seus usuários, mesmo na ausência de uma ordem judicial para remover
esse conteúdo". A mudança descrita se refere ao recurso julgado pelo STF
sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet.
O trecho original da lei previa que
as plataformas digitais só seriam responsabilizadas por danos causados por
conteúdos ofensivos se, depois de uma ordem judicial específica, não tomassem
providências para retirar o material do ar.
A nova decisão da corte não invalidou
totalmente esse entendimento, mas definiu que em casos de crimes, atos ilícitos
e contas inautênticas (criadas por robôs, por exemplo), as empresas de mídia
social se tornam responsáveis se, após serem notificadas extrajudicialmente
(pela vítima ou advogado), não removerem o conteúdo e a Justiça considerar o
material ofensivo posteriormente.
Mas em outros tipos de infração, como
nos crimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação), ainda é necessária
uma ordem judicial para retirar o conteúdo do ar.
O USTR também afirma em seus
documentos que a Justiça brasileira teria emitido "ordens secretas"
instruindo companhias de mídia social americanas a "censurar centenas de
postagens e retirar dezenas de críticos políticos, incluindo cidadãos dos EUA,
de suas plataformas por discursos legais em solo americano".
A afirmação é uma referência à
determinação do ministro Alexandre de Moraes para bloqueio de diversos perfis
em redes sociais administrados por usuários acusados de atentar contra a
democracia brasileira e o processo eleitoral, levando à invasão, em 8 de
janeiro de 2023, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.
Para Bruna Martins dos Santos, gerente
de políticas e advocacia da Witness, organização internacional sem fins
lucrativos focada em tecnologia e direitos humanos, a União Europeia (UE)
também enfrentou problemas semelhantes, quando o bloco também foi pressionado
pelo governo Trump por suas regras digitais.
Desde que assumiu a Casa Branca pela
segunda vez, o republicano repete que a regulação das big techs pela União
Europeia é uma manobra para enfraquecer os negócios americanos nos 27 países do
bloco.
"Vivemos em um momento de
exportação de agenda doméstica dos EUA, de uma extrema proteção da atuação de
empresas privadas e de relativização de obrigações que foram colocadas ao redor
do mundo em torno da atuação desses atores", afirma Santos.
"Por isso mesmo esses os
argumentos [apresentados na investigação] não têm sentido", opina.
"Diversos países ao redor do mundo, enquanto nações soberanas, dedicaram
anos à elaboração de regulações em torno do ambiente digital e de serviços
digitais."
Ainda segundo a especialista, não
houve censura na decisão judicial que determinou a retirada de postagens do ar
e suspensão de contas nas redes sociais. Para Santos, os alvos das
determinações eram reincidentes, possuíam seguidores fiéis envolvidos em
incitação de violência e ameaçaram o próprio STF e seus ministros, levando à
tomada de ações mais drásticas.
Pix ameaçado?
Ainda na área digital, o governo americano
também colocou o Pix em sua mira, acusando o sistema de pagamentos
desenvolvido pelo Banco Central de ser uma prática desleal, que prejudicaria
empresas americanas que atuam no setor.
"O Brasil também parece
envolver-se em uma série de práticas desleais em relação aos serviços de
pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a promover seu serviço de
pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo", diz um trecho do
documento que não elenca a quais práticas supostamente ilegais ele se refere.
Para especialistas ouvidos pela BBC
News Brasil, a inclusão do Pix na investigação seria uma forma de
proteger as big techs e serviços de pagamentos americanos, como Whatsapp
Pay, Apple Pay e Google Pay.
"Estamos falando aqui de uma
competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer tipo de tecnologia que
possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja sendo gerida dentro do
próprio país ou que não esteja sob controle dos EUA", diz Bruna Martins
dos Santos.
"A gente sabe que o Pix é um
método de pagamento extremamente inovador e relevante para o contexto
brasileiro, com grandes níveis de adesão. De nenhuma maneira ele deveria ser
visto como uma prática desleal de serviço de pagamento eletrônico."
E segundo Welber Barral, o argumento
de que, por ser ligado ao Banco Central, o método de pagamento gera uma
concorrência desleal, não é apropriado.
Segundo o ex-secretário, a
Organização Mundial do Comércio (OMC) permite em suas normas que empresas públicas
atuem em setores em que há falhas de mercado. "Temos uma população
desbancarizada muito grande no Brasil. O Pix foi também uma forma de integrar
essas pessoas no mercado financeiro", diz.
Além disso, afirma Barral, os EUA
também possuem empresas públicas atuando para suprir falhas de mercado. "É
o caso, por exemplo, do Serviço Postal dos Estados Unidos, que atua na área de
correio. Mas isso não quer dizer que a UPS [empresa privada de transporte e
logística] possa processar o governo americano", diz.
"E o Pix não proíbe a
concorrência, quem quiser pode usar Apple Pay, PayPal, etc. Não há nenhuma
proibição de concorrência."
Tarifas preferenciais
O Escritório do Representante
Comercial dos EUA também acusa o Brasil de reduzir tarifas de forma
"injusta e preferencial" ao firmar acordos comerciais preferenciais
de escopo parcial com parceiros comerciais globalmente competitivos, ao mesmo
tempo em que aplica tarifas mais altas às importações americanas.
O órgão americano cita especialmente
a Índia e o México como países que se beneficiariam dessas tarifas
preferenciais.
"Este tratamento preferencial
aplica-se a centenas de produtos em vários setores, como produtos agrícolas,
veículos automotores e peças, minerais, produtos químicos e máquinas", diz
o USTR.
Segundo o ex-secretário de Comércio
Exterior Welber Barral, o Brasil tem, de fato, um acordo parcial com o México,
focado nos setores automobilístico e químico.
Também existe, no âmbito do Mercosul,
um tratado com a Índia. Em vigor desde 2009, ele prevê preferências tarifárias
para 450 linhas tarifárias de cada lado.
Barral explica que, com essas tarifas
preferenciais, produtos comprados do mesmo fabricante, mas originários de
países distintos, podem ser taxados de forma totalmente diferente.
"Uma empresa como a Ford, por
exemplo, tem fábricas tanto no México como nos Estados Unidos. Para exportar um
modelo de carro para o Brasil, pode pagar tarifa zero se vier do México, e de
35% se vier dos Estados Unidos. É uma diferença grande", diz.
"E alguns mercados envolvidos
são setores de interesse para os americanos."
Fiscalização anticorrupção
Outro ponto levantado pelo governo
americano diz respeito ao combate à corrupção e à ideia de que empresas
americanas poderiam estar em desvantagem em um ambiente com pouca transparência.
"As evidências indicam que a
falta de aplicação de medidas anticorrupção e a falta de transparência no
Brasil podem prejudicar empresas americanas envolvidas em comércio e
investimentos no Brasil e levantam preocupações em relação às normas relativas
ao combate ao suborno e à corrupção", diz a USTR.
O órgão ainda cita um protocolo de
entendimento para comércio e cooperação econômica assinado por Brasil e Estados
Unidos, assinado em 2021, que estabelece, entre outras coisas, que os dois
países buscariam promover medidas anticorrupção.
Em 2024, o Brasil registrou sua pior
nota e pior colocação na série histórica do Índice de Percepção da Corrupção da
organização Transparência Internacional, considerado um dos principais
indicadores de corrupção do mundo.
Segundo a organização, o Brasil
estaria falhando em reverter a trajetória "de desmonte da luta contra a
corrupção", levando a um "processo de captura do Estado pela
corrupção" evidente principalmente por conta da presença "cada vez maior
e explícita" do crime organizado nas instituições estatais.
Para Welber Barral, a ideia defendida
pelos EUA em suas alegações "não está totalmente errada". O
especialista afirma, porém, que a corrupção no Brasil não é uma questão que
será resolvida com a aplicação de tarifas por Washington.
Proteção à propriedade intelectual e
rua 25 de março
Os EUA ainda se queixam sobre o
Brasil se envolver "em uma variedade de atos, políticas e práticas que
aparentemente negam proteção e aplicação adequadas e eficazes dos direitos de
propriedade intelectual".
O país se baseia principalmente na
alegação de que o governo brasileiro estaria falhando em combater a venda de
produtos falsificados e a pirataria em áreas como streamings e jogos
eletrônicos.
O USTR cita também a rua 25 de Março,
tradicional polo de comércio popular no centro de São Paulo, para criticar as
supostas falhas na proteção e aplicação adequada e efetiva dos direitos de
propriedade intelectual.
Há ainda queixas sobre a demora para
a análise e aprovação de pedidos de patente no país.
"O impacto da atual pendência
média de pedidos de patente de quase 7 anos (e 9,5 anos para patentes
farmacêuticas concedidas entre 2020 e 2024) é reduzir o prazo da patente",
diz o órgão comercial americano.
Para Guilherme Klein Martins, da
Universidade de Leeds, a inclusão das queixas sobre pirataria "servem
muito mais como uma desculpa do que um fato" para sustentar as tarifas e a
investigação.
"Pirataria e comércio ilegal são
um problema do mundo inteiro, não apenas do Brasil", diz.
Um relatório de 2025 elaborado pela
OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre as
tendências em torno da pirataria identifica China, Bangladesh, Líbano, Síria e
Turquia como as principais fontes desses produtos ilícitos.
Sobre a demora para a análise dos
pedidos de patentes, o vice-presidente Geraldo Alckmin — que no ano passado
ocupava o ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços —
afirmou que o Brasil estava se esforçando para se adequar ao padrão
internacional.
No Brasil, o responsável pela
concessão das patentes é o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O órgão tem sido alvo de críticas e
reclamações nos últimos anos. Titulares de invenções passaram a ir ao
Judiciário para, caso a caso, buscar uma recomposição de prazo quando ficam
anos esperando a decisão do órgão.
Em maio de 2021, o STF declarou
inconstitucional o parágrafo único do artigo 40 da Lei de Propriedade
Industrial (LPI), que previa prazo mínimo de patentes de 10 anos da concessão,
para compensar demora na análise do pedido de patente superior a 10 anos da
data do depósito.
"O INPI estava levando sete anos
para registrar uma patente. Nós reduzimos para seis, para cinco, para quatro.
No final do ano deve chegar a três. E o ano que vem, dois anos, que é o padrão
internacional", disse Alckmin no ano passado, após as alegações
americanas.
Welber Barral afirma ainda que,
apesar da demora ser uma realidade, não há discriminação contra os EUA, o que
torna a queixa ilógica. "Um inventor brasileiro ou uma empresa suíça
também passam por esse problema. Não é algo direcionado contra os EUA",
diz.
Etanol
A investigação comercial americana
também incluiria o comércio de etanol entre Brasil e EUA.
Segundo o USTR, o Brasil abandonou o
tratamento recíproco e virtualmente livre de impostos para o etanol, que
promovia o comércio bilateral, e impôs tarifas de importação íngremes e
injustas sobre o etanol dos EUA.
O órgão comercial americano diz
também que as exportações de etanol dos EUA para o Brasil caíram significativamente
devido a essas tarifas, indicando uma desvantagem considerável para os
produtores norte-americanos.
"Essa é uma reclamação americana
de muito tempo. Já houve muitas negociações, implementação de cota e
postergação das decisões", diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio
Exterior.
Segundo o especialista, as taxas do
Brasil ao etanol americano são, de fato, muito mais elevadas do que as
encontradas pelos produtores brasileiros nos EUA. E a principal razão para
isso, diz, é a necessidade de proteger as usinas no nordeste do país.
"Entra muito etanol americano na
região, onde a produção é menos eficiente do que nos EUA", explica.
As importações do biocombustível
americano estão sujeitas a uma tarifa de 18%, que é comum para todos os países
membros do Mercosul. Já os EUA impõem atualmente uma tarifa de 2,5% sobre as
importações de etanol brasileiro.
Durante as negociações, o Brasil
chegou a propor que os EUA aumentassem a cota de importação de açúcar
brasileiro para o país em troca de uma redução das tarifas ao etanol, de forma
a recompensar os produtores brasileiros que fazem o etanol a partir da cana-de-açúcar.
Mas o plano nunca foi considerado por Washington.
"Os EUA estão exigindo
unilateralmente que o Brasil reduza a tarifa sem sequer responder à proposta
brasileira", diz Barral.
Especialistas afirmam ainda que o
etanol americano é resultado de uma produção viabilizada por subsídios ao
milho, prática que influencia diretamente o preço do combustível.
Para alguns, portanto, a tarifa
aplicada pelo Brasil ao etanol americano serviria como um mecanismo de defesa
comercial.
"O Brasil também poderia alegar
que se sente injustiçado porque o etanol nos EUA é produzido de uma maneira
cheia de subsídios", avalia o economista Guilherme Klein Martins.
"Isso abre espaço para uma discussão mais ampla sobre o que é uma tarifa
justa ou injusta."
Desmatamento ilegal
Os EUA também se queixam de que o
Brasil não consegue aplicar suas próprias leis contra o desmatamento,
prejudicando produtores agrícolas e de madeira americanos.
"A conversão de terras
desmatadas ilegalmente para a produção agrícola proporciona uma vantagem
competitiva injusta às exportações agrícolas, reduzindo custos e expandindo a
disponibilidade de insumos agrícolas", alega o governo de Donald Trump,
que ainda aponta o Brasil como grande concorrente dos EUA nas vendas globais de
produtos agrícolas, "incluindo carne bovina, milho e soja".
O documento inicial da investigação
comercial reconhece que "as taxas de desmatamento diminuíram nos últimos
anos" no país, mas afirma que o patamar atual ainda é alto.
O Relatório Anual do Desmatamento
(RAD 2024) do MapBiomas, divulgado em maio deste ano, revelou uma redução de
32,4% na área desmatada no Brasil em 2024 em comparação com 2023.
Cinco dos seis biomas brasileiros
tiveram redução no desmatamento, segundo o levantamento.
A área total desmatada no acumulado dos
últimos seis anos (2019-2024), porém, atinge a marca alarmante de 9.880.551
hectares, uma área comparável ao tamanho da Coreia do Sul.
Para o secretário executivo do
Observatório do Clima, Márcio Astrini, o combate ao desmatamento no país tem se
mostrado instável ao longo dos últimos anos, a depender do governo. O
especialista faz críticas contundentes às políticas ambientais do governo de
Jair Bolsonaro, que segundo ele "era omisso em relação à questão" e
"impulsionou o crime ambiental".
"E Donald Trump, em seu primeiro
mandato, manteve relações estreitas e de apoio com o governo Bolsonaro",
aponta Astrini, que vê as acusações americanas neste momento como uma
demonstração de hipocrisia.
O secretário do Observatório do Clima
afirma ainda que a gestão do republicano abandonou qualquer tipo de ajuda ao
controle do desmatamento na Amazônia, ao contrário de outros presidentes
americanos, e que a forma como o tema está sendo tratado nesse momento pode ser
entendida como uma ameaça à soberania.
"O combate ao desmatamento deve
ser realizado única e exclusivamente pelo governo brasileiro de forma autônoma.
Ajudas externas são bem-vindas, mas elas não devem ameaçar a soberania
brasileira", opina ainda o especialista.
Para Guilherme Klein, da Universidade
de Leeds, as alegações sobre desmatamento são as que mais poderiam fazer
sentido entre todas apresentadas pelo USTR.
Segundo ele, aumentar tarifas de
importação ou restringir a importação com base em deflorestamento ou emissões
de carbono é uma tendência, com, por exemplo, a implementação de mecanismos
pela União Europeia.
O chamado Mecanismo de Ajustamento de
Carbono nas Fronteiras (CBAM) da UE estabelece um preço para o carbono emitido
durante a produção de bens com elevado teor de carbono importados para o bloco.
O economista afirma, porém, que essas
taxações ocorrem de maneira muito diferente da adotada pelos EUA com o Brasil.
"Não cabe como justificativa para aumentar em 50% a tarifa de todas as
importações", diz. "Está muito fora do tom."
* Com reportagem de Julia Braun, da
BBC News Brasil em Londres



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