Para
o estudioso, a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1988,
é a mais lacônica da história brasileira. “A chamada Lei Áurea traz dois
artigos. Declara-se extinta a escravidão no Brasil — e declarar não é promulgar
–, e o segundo artigo é: revogam-se as disposições em contrário. Para mim,
essas disposições em contrário ao escravismo permaneceram. Vem a República e a
primeira iniciativa estratégica do governo brasileiro foi o decreto 528,
contrário à Lei Áurea.”
O
decreto mencionado, apelidado de “Lei Glicério”, passou a estimular a vinda de
imigrantes europeus para o país, ao mesmo tempo em que proibia ou colocava
entraves para a entrada de pessoas da Ásia e da África. “É muito comum falar
que a população negra foi abandonada no dia 14 de maio. É uma meia-verdade.
Além de abandonada, houve todo o esforço para potencializar outros grupos.
Houve uma deliberação do Estado”, explica Santos.
O
professor recorda a proposta de André Rebouças, engenheiro da época do Brasil
Império, para quem a abolição da escravidão deveria ser acompanhada por uma
reforma agrária. Rebouças propunha a concessão de terras públicas para
ex-escravizados como forma de garantir o que chamava de “democracia
rural”.
Ativista
do movimento negro, Hélio Santos comenta que, se a proposta de Rebouças fosse
concretizada, o país seria diferente. “As famílias escravizadas tinham
experiência agrícola, sabiam preparar a terra, plantar e colher. Se,
naquela época, [quando] os problemas fundiários do nosso país eram
infinitamente menores, a reforma agrária tivesse sido feita, hoje nós
estaríamos discutindo aqui outras coisas.”
“Se
as famílias escravizadas tivessem tido as mesmas oportunidades que foram dadas
aos europeus, nós teríamos outro país. Mas é lógico que é o racismo, que está
desde o início na formação do Brasil, que impediu isso”, completa o professor,
que caracteriza o processo de concessão de terras para imigrantes europeus como
uma política de cotas destinada a pessoas brancas.
Outro
tema importante na luta pela democracia racial tratado no livro por Santos é a
tese do colorismo, inaplicável à realidade brasileira, segundo o
intelectual.
“O
que é que o colorismo divulga? Que as pessoas negras, quanto mais clara for a
tonalidade da sua pele, menos problemas elas terão. E, quanto mais escuro for o
tom, mais dificuldades ela terá. [Se compararmos] pretos e pardos, do ponto de
vista da pobreza, os pardos são tão ou levemente mais pobres do que os pretos.
E, do ponto de vista da escolaridade, os pardos têm menos anos de estudo do que
os pretos, mas estão muito juntos e, na renda, estão iguais. A tese do
colorismo que Alice Walker trabalhou nos Estados Unidos, não funciona aqui.”
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