quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Aos 100 anos de Fidel, documentário do BdF discute legado do líder cubano diante dos desafios atuais da ilha

Neste 13 de agosto, o dia em que Fidel Castro completaria 100 anos, o Brasil de Fato estreia o documentário “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus”. Filmada principalmente em Havana e cidades do entorno, a produção percorre o legado do líder da Revolução Cubana, a partir dos desafios enfrentados atualmente pela ilha.

Disponível gratuitamente a partir das 9h desta quinta-feira (13), no canal do Brasil de Fato no YouTube, com legendas em português e espanhol, o filme reúne imagens históricas e depoimentos do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, da deputada Mariela Castro, sobrinha de Fidel e filha de Raúl Castro, e da médica Aleida Guevara, filha de Ernesto Che Guevara. Trabalhadores, agricultores, artistas e cientistas também participam da produção.

O filme também exibe imagens raras da Revolução Cubana e discursos pouco conhecidos de Fidel, a partir de uma pesquisa no arquivo de cinejornais do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. A voz do líder cubano ajuda a conduzir a narrativa, conectando diferentes eras de seu pensamento.

Além de dar dimensão histórica à trajetória de Fidel, morto em novembro de 2016, aos 90 anos, o documentário parte de uma questão imposta pelo presente: como o legado do líder revolucionário é mobilizado diante dos desafios enfrentados hoje por Cuba?

A pergunta atravessa um país impactado pelo recrudescimento do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que desencadeou um cenário de escassez de combustíveis, apagões e dificuldades para manter a produção e os serviços cotidianos. Ao mesmo tempo, Cuba implementa mudanças em seu modelo econômico e formas de ampliar a produção sem abandonar o projeto socialista.

Uma das vozes do filme, o presidente Díaz-Canel explica que os ensinamentos de Fidel servem de guia para os cubanos na construção do futuro do processo revolucionário. “A Fidel perdemos fisicamente, mas Fidel está presente. O legado de Fidel está presente todos os dias no que fazemos, na obra da Revolução, também como inspiração para o que é preciso fazer nos momentos difíceis”, afirma no documentário.

Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, discute no documentário o legado de Fidel e a ideia de ‘resistência criativa’ diante dos desafios atuais do país | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato

Crise e ‘resistência criativa’

Um dos eixos de “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus” aborda os impactos da atual asfixia energética sobre a vida cotidiana. Os relatos passam pela dificuldade de abastecimento de combustível, redução do transporte e impactos dos cortes de energia sobre o fornecimento de água, a conservação de alimentos, o atendimento nos hospitais, nas escolas e nas atividades econômicas em geral.

Como resposta a esse cenário, o presidente cubano cunha o conceito de “resistência criativa”. Para o Díaz-Canel, a expressão não significa apenas suportar as dificuldades, mas encontrar formas de produzir, inovar e reorganizar o país diante delas.

“Fidel sempre dizia que as crises eram oportunidades para crescermos como revolucionários, eram oportunidades para nos aperfeiçoarmos. Fidel também dizia que, em momentos complexos, não se podia renunciar ao desenvolvimento e à criatividade. E, da ligação desses dois conceitos, […] procurei elaborar o conceito de resistência criativa”, diz.

Em 2026, o governo cubano aprovou 176 medidas de transformação econômica como parte de uma tentativa de reativar a produção e os serviços. Entre os objetivos anunciados estão fortalecer empresas estatais e não estatais, ampliar a autonomia de municípios e empresas públicas, estimular investimentos e criar associações entre os setores estatal, privado e cooperativo.

As mudanças também provocam debates dentro da sociedade cubana. Entre as preocupações reconhecidas pelo governo estão o crescimento do capital privado, a concentração de riqueza, o aumento das desigualdades, o papel do mercado e os mecanismos de controle popular sobre as transformações.

O filme coloca nesse cenário formas de organização que antecedem a crise atual. Cooperativas, iniciativas comunitárias e participação popular aparecem como parte de uma tradição construída ao longo das décadas da Revolução, agora confrontada com novas exigências econômicas.

“É preciso inventar, criar, ver como podemos sair do buraco em que estamos, sem nunca perder a perspectiva de uma sociedade socialista”, sintetiza Aleida Guevara, no documentário.

Filha de Che Guevara, Aleida Guevara relembra no documentário a convivência
 com Fidel Castro desde a infância | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato

Produzir alimentos também é resistir

Entre os camponeses ouvidos pelo Brasil de Fato, fica evidente a relação entre o legado histórico de Fidel e a necessidade de superação para manter a produção de alimentos saudáveis, mesmo sob condições adversas. O documentário percorre experiências de agricultura cooperativa e produção urbana e suburbana, e recupera a prioridade dada à produção de alimentos durante o governo de Fidel.

Em meio à falta de combustível e insumos, agricultores relatam dificuldades para mecanizar o trabalho e transportar a produção. Amarílis Iriarte Báez, uma das vozes do setor agrícola ouvidas no filme, relaciona a organização dos camponeses às transformações sociais iniciadas depois de 1959. Segundo ela, educação, saúde e acesso à formação profissional também modificaram a posição social das famílias rurais.

“Se hoje os camponeses são agradecidos ao processo revolucionário, foi porque, ao triunfar esse mesmo processo, Fidel nos transformou em parte da sociedade civil. Deu estudo, escola, saúde, a possibilidade de que seus filhos e seus netos hoje fossem médicos, profissionais, artistas. E a maneira que temos hoje de retribuir tudo isso é cultivando a terra, dando o melhor que temos”, afirma.

A urgência de manter a produção de comida para superar a asfixia do bloqueio energético aparece de forma ainda mais direta no depoimento do agricultor Lázaro Calixto, de 86 anos. Ele relembra ter participado da defesa da Revolução desde a juventude e compara aqueles enfrentamentos ao trabalho atual no campo.

“Defendi a Revolução em Girón, combatendo em Girón. Defendi a Revolução na Crise de Outubro. Defendi a Revolução na luta contra os bandidos e sigo defendendo até hoje. Uma forma, neste momento, de defender a Revolução é produzir”, diz.

Ciência como estratégia de soberania

Como reflexo da diversidade e excelência do legado de Fidel Castro, o documentário também se debruça sobre a experiência cubana em desenvolver a ciência, a medicina e a biotecnologia. O filme visita centros científicos e recupera a formação de pesquisadores como parte de uma estratégia iniciada nas primeiras décadas da Revolução. O percurso chega à produção de medicamentos e às vacinas desenvolvidas por Cuba contra a covid-19.

A cientista Mabel Izquierdo López afirma que essa política foi pensada desde os primeiros anos do processo revolucionário. “A importância dos cientistas está escrita desde o início da Revolução. Fidel identificou essa necessidade. Abriram universidades, criou-se uma academia, porque o país precisa disso. Aqui não é uma ciência de elite, nem para buscar reconhecimento. Aqui é uma ciência, em qualquer sentido, a favor do desenvolvimento do nosso país”, relata.

Mabel também cita no filme as mais de 60 patentes obtidas pelo Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB), onde trabalha. São medicamentos incorporados ao sistema cubano de saúde e à experiência da vacina Abdala durante a pandemia. Para a pesquisadora, o trabalho científico está diretamente relacionado a seus resultados sociais.

“Sentimos que demos tudo, que entregamos tudo em troca de nada, simplesmente para ver a saúde de um povo, ver que as pessoas melhoram, ver que Cuba conquista cada vez mais espaço na ciência em nível mundial”, afirma.

Cientista Mabel Izquierdo López aborda a aposta cubana em ciência e biotecnologia 
como estratégia para o desenvolvimento do país | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato

Fidel além do líder revolucionário

“Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus” também busca um Fidel menos associado aos grandes discursos e mais próximo das pessoas que conviveram com ele.

Mariela Castro descreve um dirigente cuja relação com a população também se construía pela capacidade de comunicação e pelo contato pessoal. “Fidel é ternura, Fidel é amor. Fidel é um alto sentido de responsabilidade. Fidel é um homem de cultura, é um intelectual. Um homem que, como dizia Gabriel García Márquez, cuidava muito das palavras. Por isso comunicava e escrevia com muito rigor. Era um comunicador por excelência, o grande comunicador da Revolução”, afirma.

Aleida Guevara recupera a memória íntima dessa convivência. Depois da morte do pai, em 1967, ela cresceu mantendo uma relação próxima com Fidel. “Desde muito pequena percebi que estava ao lado de um homem excepcional pela forma como ele me tratava. Isso não é habitual nos grandes homens, tratar uma criança com essa delicadeza, com essa ternura. Eu não era sua filha biológica. Então, de alguma maneira, comecei a perceber o homem que ele era”, relata.

Aleida recorda ainda que, quando tinha cerca de seis anos e não sabia escrever bem, ditou à mãe seu primeiro poema. Segundo ela, a mãe disse que os versos eram dedicados aos “dois pais”, Che e Fidel. “Mas, na verdade, eu o fiz para Fidel. Era quem estava perto”, conta.

Filha de Raúl Castro e sobrinha de Fidel, Mariela Castro aborda no filme a dimensão
 pessoal e política do líder da Revolução Cubana | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato+IJ

Queimar os céus: a trilha de Silvio Rodríguez

A música conduz parte da viagem entre memória e presente. A trilha sonora tem o brilhantismo de Silvio Rodríguez, um dos principais nomes da Nueva Trova Cubana. E inclui canções como El Necio, La Era Está Pariendo un Corazón e El Aguerrido Pueblo de Fidel.

É de La Era Está Pariendo un Corazón que vem a imagem que dá nome ao documentário. A canção traz o verso “quemar el cielo si es preciso”, expressão que acompanha a ideia de sempre buscar alternativas diante de limites aparentemente intransponíveis.

Essa ideia reaparece na sequência final, quando Díaz-Canel cita médicos e enfermeiros que chegam ao trabalho mesmo diante das dificuldades de transporte, professores que mantêm as aulas durante os apagões e agricultores que seguem produzindo em meio à falta de combustível. São exemplos que o presidente associa à “resistência criativa”, apresentada ao longo do filme.

“Não há apagão que apague a vontade. Não há escassez que quebre a esperança”, afirma Díaz-Canel.

(Brasil de Fato)

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