O
filme também exibe imagens raras da Revolução Cubana e discursos pouco
conhecidos de Fidel, a partir de uma pesquisa no arquivo de cinejornais do
Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. A voz do líder cubano
ajuda a conduzir a narrativa, conectando diferentes eras de seu pensamento.
Além
de dar dimensão histórica à trajetória de Fidel, morto em novembro de 2016, aos
90 anos, o documentário parte de uma questão imposta pelo presente: como o
legado do líder revolucionário é mobilizado diante dos desafios enfrentados
hoje por Cuba?
A
pergunta atravessa um país impactado pelo recrudescimento
do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que desencadeou
um cenário de escassez de combustíveis, apagões e dificuldades para manter a
produção e os serviços cotidianos. Ao mesmo tempo, Cuba implementa mudanças
em seu modelo econômico e formas de ampliar a produção sem
abandonar o projeto socialista.
Uma
das vozes do filme, o presidente Díaz-Canel explica que os ensinamentos de Fidel
servem de guia para os cubanos na construção do futuro do processo
revolucionário. “A Fidel perdemos fisicamente, mas Fidel está presente. O
legado de Fidel está presente todos os dias no que fazemos, na obra da
Revolução, também como inspiração para o que é preciso fazer nos momentos
difíceis”, afirma no documentário.
Crise
e ‘resistência criativa’
Um
dos eixos de “Fidel e Cuba Socialista – Queimar os Céus” aborda os impactos da
atual asfixia energética sobre a vida cotidiana. Os relatos passam pela
dificuldade de abastecimento de combustível, redução do transporte e impactos
dos cortes de energia sobre o fornecimento de água, a conservação de alimentos,
o atendimento nos hospitais, nas escolas e nas atividades econômicas em geral.
Como
resposta a esse cenário, o presidente cubano cunha o conceito de “resistência
criativa”. Para o Díaz-Canel, a expressão não significa apenas suportar as
dificuldades, mas encontrar formas de produzir, inovar e reorganizar o país
diante delas.
“Fidel
sempre dizia que as crises eram oportunidades para crescermos como
revolucionários, eram oportunidades para nos aperfeiçoarmos. Fidel também dizia
que, em momentos complexos, não se podia renunciar ao desenvolvimento e à
criatividade. E, da ligação desses dois conceitos, […] procurei elaborar o
conceito de resistência criativa”, diz.
Em
2026, o governo cubano aprovou 176 medidas de transformação econômica como
parte de uma tentativa de reativar a produção e os serviços. Entre os objetivos
anunciados estão fortalecer empresas estatais e não estatais, ampliar a
autonomia de municípios e empresas públicas, estimular investimentos e criar
associações entre os setores estatal, privado e cooperativo.
As
mudanças também provocam debates dentro da sociedade cubana. Entre as
preocupações reconhecidas pelo governo estão o crescimento do capital privado,
a concentração de riqueza, o aumento das desigualdades, o papel do mercado e os
mecanismos de controle popular sobre as transformações.
O
filme coloca nesse cenário formas de organização que antecedem a crise atual.
Cooperativas, iniciativas comunitárias e participação popular aparecem como
parte de uma tradição construída ao longo das décadas da Revolução, agora
confrontada com novas exigências econômicas.
“É
preciso inventar, criar, ver como podemos sair do buraco em que estamos, sem
nunca perder a perspectiva de uma sociedade socialista”, sintetiza Aleida
Guevara, no documentário.
Produzir
alimentos também é resistir
Entre
os camponeses ouvidos pelo Brasil de Fato, fica evidente a relação
entre o legado histórico de Fidel e a necessidade de superação para manter a produção
de alimentos saudáveis, mesmo sob condições adversas. O documentário percorre
experiências de agricultura cooperativa e produção urbana e suburbana, e
recupera a prioridade dada à produção de alimentos durante o governo de Fidel.
Em
meio à falta de combustível e insumos, agricultores relatam dificuldades para
mecanizar o trabalho e transportar a produção. Amarílis Iriarte Báez, uma das
vozes do setor agrícola ouvidas no filme, relaciona a organização dos
camponeses às transformações sociais iniciadas depois de 1959. Segundo ela,
educação, saúde e acesso à formação profissional também modificaram a posição
social das famílias rurais.
“Se
hoje os camponeses são agradecidos ao processo revolucionário, foi porque, ao
triunfar esse mesmo processo, Fidel nos transformou em parte da sociedade
civil. Deu estudo, escola, saúde, a possibilidade de que seus filhos e seus
netos hoje fossem médicos, profissionais, artistas. E a maneira que temos hoje
de retribuir tudo isso é cultivando a terra, dando o melhor que temos”, afirma.
A
urgência de manter a produção de comida para superar a asfixia do bloqueio
energético aparece de forma ainda mais direta no depoimento do agricultor
Lázaro Calixto, de 86 anos. Ele relembra ter participado da defesa da Revolução
desde a juventude e compara aqueles enfrentamentos ao trabalho atual no campo.
“Defendi
a Revolução em Girón, combatendo em Girón. Defendi a Revolução na Crise de
Outubro. Defendi a Revolução na luta contra os bandidos e sigo defendendo até
hoje. Uma forma, neste momento, de defender a Revolução é produzir”, diz.
Ciência
como estratégia de soberania
Como
reflexo da diversidade e excelência do legado de Fidel Castro, o documentário
também se debruça sobre a experiência cubana em desenvolver a ciência, a
medicina e a biotecnologia. O filme visita centros científicos e recupera a
formação de pesquisadores como parte de uma estratégia iniciada nas primeiras
décadas da Revolução. O percurso chega à produção de medicamentos e às
vacinas desenvolvidas por Cuba contra a covid-19.
A
cientista Mabel Izquierdo López afirma que essa política foi pensada desde os
primeiros anos do processo revolucionário. “A importância dos cientistas está
escrita desde o início da Revolução. Fidel identificou essa necessidade.
Abriram universidades, criou-se uma academia, porque o país precisa disso. Aqui
não é uma ciência de elite, nem para buscar reconhecimento. Aqui é uma ciência,
em qualquer sentido, a favor do desenvolvimento do nosso país”, relata.
Mabel
também cita no filme as mais de 60 patentes obtidas pelo Centro
de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB), onde trabalha.
São medicamentos incorporados ao sistema cubano de saúde e à experiência da
vacina Abdala durante a pandemia. Para a pesquisadora, o trabalho científico
está diretamente relacionado a seus resultados sociais.
“Sentimos
que demos tudo, que entregamos tudo em troca de nada, simplesmente para ver a
saúde de um povo, ver que as pessoas melhoram, ver que Cuba conquista cada vez
mais espaço na ciência em nível mundial”, afirma.
Fidel
além do líder revolucionário
“Fidel
e Cuba Socialista – Queimar os Céus” também busca um Fidel menos associado aos
grandes discursos e mais próximo das pessoas que conviveram com ele.
Mariela
Castro descreve um dirigente cuja relação com a população também se construía
pela capacidade de comunicação e pelo contato pessoal. “Fidel é ternura, Fidel
é amor. Fidel é um alto sentido de responsabilidade. Fidel é um homem de
cultura, é um intelectual. Um homem que, como dizia Gabriel García Márquez,
cuidava muito das palavras. Por isso comunicava e escrevia com muito rigor. Era
um comunicador por excelência, o grande comunicador da Revolução”, afirma.
Aleida
Guevara recupera a memória íntima dessa convivência. Depois da morte do pai, em
1967, ela cresceu mantendo uma relação próxima com Fidel. “Desde muito pequena
percebi que estava ao lado de um homem excepcional pela forma como ele me
tratava. Isso não é habitual nos grandes homens, tratar uma criança com essa
delicadeza, com essa ternura. Eu não era sua filha biológica. Então, de alguma
maneira, comecei a perceber o homem que ele era”, relata.
Aleida
recorda ainda que, quando tinha cerca de seis anos e não sabia escrever bem,
ditou à mãe seu primeiro poema. Segundo ela, a mãe disse que os versos eram
dedicados aos “dois pais”, Che e Fidel. “Mas, na verdade, eu o fiz para Fidel.
Era quem estava perto”, conta.
Queimar
os céus: a trilha de Silvio Rodríguez
A
música conduz parte da viagem entre memória e presente. A trilha sonora tem o
brilhantismo de Silvio
Rodríguez, um dos principais nomes da Nueva Trova Cubana. E inclui
canções como El
Necio, La Era Está Pariendo un Corazón e El Aguerrido Pueblo
de Fidel.
É
de La Era
Está Pariendo un Corazón que vem a imagem que dá nome ao
documentário. A canção traz o verso “quemar el cielo si es preciso”, expressão que
acompanha a ideia de sempre buscar alternativas diante de limites aparentemente
intransponíveis.
Essa
ideia reaparece na sequência final, quando Díaz-Canel cita médicos e
enfermeiros que chegam ao trabalho mesmo diante das dificuldades de transporte,
professores que mantêm as aulas durante os apagões e agricultores que seguem
produzindo em meio à falta de combustível. São exemplos que o presidente
associa à “resistência criativa”, apresentada ao longo do filme.
“Não
há apagão que apague a vontade. Não há escassez que quebre a esperança”, afirma
Díaz-Canel.
(Brasil
de Fato)





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