Jair Bolsonaro venceu a eleição de 2018 concorrendo com apoio de duas siglas nanicas, PSL e PRTB. Naquele ano, Geraldo Alckmin concorreu pelo PSDB, com apoio de grandes legendas de centro-direita, mas não chegou ao segundo turno.
A dificuldade em angariar apoios em 2026 não é
apenas dos dois candidatos mais competitivos. Nenhum outro concorrente ao
Palácio do Planalto, além de Lula, conseguiu montar uma coligação — é a
primeira vez que isso ocorre em disputas presidenciais desde 1989, segundo
levantamento do jornal Folha de S.Paulo. Ou seja, quase todos os candidatos
estão concorrendo apenas por seus próprios partidos.
Segundo cientistas políticos ouvidos pela BBC News
Brasil, isso reflete mudanças estruturais na política brasileira. Hoje,
ressaltam, as grandes legendas têm preferido focar na disputa pelo Congresso,
pois uma grande bancada garante acesso a uma maior quantidade de recursos por
meio das emendas parlamentares (R$ 61 bilhões em 2026). Além disso, um maior
número de deputados e senadores obriga que, qualquer que seja o presidente eleito,
negocie apoio da sigla posteriormente.
"Aqueles tempos de coligações entre partidos
de centro e de partidos grandes e médios não existem mais", enfatiza o
cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice.
Isso também acontece, nota Aragão, devido à forma
como as siglas do Centrão se relacionam regionalmente com a forte polarização
entre lulismo e bolsonarismo. É comum que esses partidos se aproximem do PT
onde o partido de Lula é mais forte, como na região Nordeste, mas estejam
posicionados à direita em outros Estados.
Com isso, essas siglas preferem manter neutralidade
na disputa nacional para que as lideranças estaduais possam apoiar localmente
os candidatos que preferirem.
"Com as próprias divisões regionais que
existem, fica difícil ter uma posição única, nacional", resume.
Um exemplo desse fenômeno é o PP, presidido pelo
senador Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, mas
agora busca sua reeleição no Piauí, Estado de forte eleitorado lulista.
Em 2022, a sigla apoiou a tentativa de reeleição de
Bolsonaro, mas agora decidiu não entrar na disputa pelo Palácio do Planalto. O
mesmo ocorreu com o Republicanos.
A resistência dessas duas siglas em repetir o apoio
à família Bolsonaro, agora com Flávio, deixou o candidato do PL com pouca
margem para escolha do candidato a vice.
Entre os nomes cotados estavam o da senadora Tereza
Cristina (PP) e da ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos), mas
o escolhido acabou sendo o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), político de pouca
projeção nacional.
"O vice escolhido reflete uma maturidade do
Centrão, de entender que é melhor estar na eleição para o Congresso do que em
uma eleição para a Presidência. O Centrão não comprou a candidatura do
Lula, não comprou a candidatura do Flávio, nem de
outro candidato. Isso deixou o Flávio sem opções", afirma o analista
político Creomar de Souza, sócio-fundador da consultoria Dharma e professor da
Fundação Dom Cabral.
Lula sem frente ampla
Já Lula, embora tenha reunido apoio de sete legendas, formou
uma aliança restrita à esquerda. Apoiam sua tentativa de reeleição o
PCdoB e o PV, que integram uma federação com o PT, a federação PSOL-Rede, além
das siglas PSB e PDT.
O candidato a vice será novamente Geraldo Alckmin
(PSB).
Alianças à esquerda são um padrão nas campanhas
petistas desde 2018, após o impeachment de Dilma Rousseff. Antes disso, desde
2002, o PT sempre atraiu ao menos um partido de centro-direita para a disputa
presidencial e chegou a concorrer coligado a grandes siglas em 2010 e 2014,
quando Dilma foi reeleita, como MDB, PP e PSD.
Já em 2022, Lula tinha apoio de dez partidos, sendo
seis que estão com ele nesta eleição. De lá para cá, perdeu o apoio de siglas
menores — Solidariedade, Pros (extinto) e Agir — e ganhou o apoio do PDT.
Apesar do perfil semelhante da coligação,
cientistas políticos notam uma mudança na cara da campanha petista. Em 2022,
havia o mote da "frente ampla", com lideranças de diferentes
espectros políticos e segmentos sociais declarando apoio a Lula contra Jair
Bolsonaro.
Naquele ano, o petista recebeu, por exemplo, o endosso
de expoentes do mercado financeiro, como os ex-presidentes do Banco Central
Henrique Meirelles e Armínio Fraga, algo que não ocorreu neste ano, até o
momento.
Também foi marcante a migração de Geraldo Alckmin
do PSDB para o PSB, para concorrer como vice de Lula, assim como o apoio de
Simone Tebet no segundo turno, então candidata ao Planalto pelo MDB,
contrariando seu partido. Depois, ela se tornou ministra do Planejamento de
Lula. Atualmente, Tebet está no PSB e disputará uma vaga no Senado por São Paulo
com apoio do presidente.
Para o cientista político Lucas Aragão, da Arko
Advice, a "frente ampla" ao redor de Lula ganhou força em 2022 porque
parte da sociedade entendia que a vitória de Jair Bolsonaro representava riscos
para a democracia. Na sua leitura, essa percepção mudou.
"Os riscos democráticos não são mais uma das
principais pautas do país. Teve também escândalos do Banco Master que atingiram
a imagem do STF e também reduziram o ímpeto em torno de uma batalha de proteção
à democracia liderada pela Corte."
Na visão do cientista político Creomar de Souza,
"Esse caráter de frente ampla foi se esvaziando pelas próprias escolhas do
governo Lula" quando o presidente manteve os principais ministérios nas
mãos do PT, como os cargos palacianos (Casa Civil, Relações Institucionais, Secretaria-Geral
e Secretaria de Comunicação) e os ministérios da Fazenda e da Educação.
"O partido elegeu 13% dos deputados e ficou
com quase 40% do orçamento da Esplanada", recorda.
Para Creomar de Souza, isso também se manifestou na
comunicação do governo.
"A cerimônia do ano passado sobre o 8 de
janeiro foi uma festa do PT. Tudo em vermelho, toda a simbologia exaltando o PT
e ignorando o fato de que houve, sim, uma coalizão institucional de muita gente
para enfrentar o bolsonarismo. Aí, o discurso perde a credibilidade".
Lula terá maior tempo de propaganda
O tempo de propaganda eleitoral de cada candidato presidencial ainda será
calculado e divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 20 de agosto, após o
fim do prazo para registro das candidaturas (15 de agosto).
Considerando o definido nas convenções partidárias,
apenas quatro candidatos devem ter direito à propaganda gratuita em rádio e
televisão: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante).
Outras candidaturas que têm pontuado nas pesquisas
eleitorais, como Romeu Zema (Novo), devem ficar de fora porque suas siglas não
alcançaram a cláusula de desempenho — uma quantidade mínima de deputados
federais eleitos e de votos para a Câmara em diferentes regiões do Brasil no
pleito de 2022.
No caso do Missão, que lançou Renan Santos ao Planalto, a
sigla nasceu em 2025 e conta com apenas um deputado federal, Kim Kataguiri
(SP).
Como a divisão do tempo de propaganda segue o
tamanho das bancadas dos partidos da coligação no Congresso, Lula terá o maior
tempo, seguido de Flávio Bolsonaro.
Os partidos terão direito ainda a quase R$ 5
bilhões para financiar as campanhas, cuja distribuição também segue o tamanho
das bancadas parlamentares.
Os maiores beneficiados são PL (R$ 881 milhões), PT
(R$ 615 milhões), União Brasil (R$ 526 milhões), PSD (R$ 421 milhões), PP (R$
417 milhões), MDB (R$ 400 milhões) e Republicanos (R$ 348 milhões).
(Fonte:
BBC)



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