Hoje, um dos motivos que coloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na frente
do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais é a ampla vantagem
que tem entre as eleitoras.
A resposta de radicais a esse fosso que se abriu nas preferências de
gênero foi um aumento dos ataques ao voto feminino.
No YouTube, TikTok e Instagram, é possível encontrar "cortes"
(trechos curtos de uma entrevista, geralmente de tom bombástico) em que
participantes de podcasts dizem frases como "o voto
feminino é o erro da democracia ocidental" ou "é muito fácil
convencer a mulher de votar, é só você seduzi-la".
Autor de O país dividido, em que analisa as disputas
presidenciais das duas últimas décadas, Jairo Nicolau nota que o fenômeno
do gap de gênero, quando aumenta a diferença entre os votos de
homens e mulheres, ganhou força no Brasil a partir de 2018 e se intensificou em
2022 e 2026.
Antes disso, não é que mulheres e homens votassem de forma idêntica, mas
o fosso entre eles não era tão grande, ressalta.
"Em 2018, durante a campanha, havia uma maior rejeição, sobretudo
entre as mulheres jovens, em relação ao candidato Jair Bolsonaro, mas ele
acabou vencendo com uma margem pequena entre as mulheres e uma margem muito
grande entre os homens", lembra Nicolau, a partir da análise das pesquisas
eleitorais daquele ano.
"Já em 2022, aconteceu uma coisa ainda mais interessante, do ponto
de vista da divisão eleitoral de homens e mulheres: o Lula venceu com uma certa
margem entre as mulheres e perdeu por pouco, mas perdeu, entre os homens,
segundo vários testes que fiz [a partir das pesquisas de intenção de voto]. Foi
a primeira vez que um candidato foi eleito vencendo em apenas um segmento de
gênero", ressalta.
As sondagens de 2026 indicam que esse cenário pode se repetir. Segundo
pesquisa Genial/Quaest realizada no início de agosto, Lula aparece com 44% de
intenção de voto em eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que soma
39%.
No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil,
Lula tem 45% das intenções de voto no segundo turno, contra 44% de Flávio Bolsonaro.
A vantagem de Lula é puxada pelas mulheres. De acordo com a
Genial/Quaest, 47% das eleitoras dizem que pretendem votar no presidente,
enquanto 35% declaram voto no senador — uma diferença de doze pontos
percentuais.
A pedido da BBC News Brasil, o instituto Quaest destrinchou as intenções
de voto feminino. Segundo a média das pesquisas Genial/Quaest realizadas de
fevereiro a agosto, a preferência pelo petista na comparação com Flávio vem,
principalmente, do apoio das mulheres nordestinas (62% a 23%), pretas (55% a
24%) e de renda até dois salários mínimos (52% a 29%).
Considerando a idade, Lula vai melhor entre jovens e idosas, com
vantagem acima de dez pontos percentuais. Já entre as eleitoras de 35 a 59
anos, a diferença é menor (43% a 37%).
Repetindo o perfil eleitoral do pai, Flávio atrai mais apoio entre os
homens, mas com vantagem menor sobre seu adversário: 44% dos eleitores disseram
que votariam no candidato do PL contra 40% que pretendem votar pela reeleição
de Lula, em caso de segundo turno entre os dois.
Esse cenário dá especial vantagem para o petista, porque as mulheres são
a maioria do eleitorado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há 83,8
milhões de brasileiras registradas para votar nesta eleição, o equivalente a
52,8% do total de votantes.
Ou seja, elas somam cerca de 9 milhões de votos a mais do que os homens,
que totalizam 74,8 milhões de eleitores registrados na Justiça Eleitoral. A
diferença reflete, principalmente, o fato de as brasileiras constituírem a
maioria da população, já que, na média, vivem mais que eles.
'Mesmo entre conservadoras, mulheres rejeitam radicalismo'
No final de julho, o filho de Jair Bolsonaro manifestou incredulidade
com a rejeição da maioria das mulheres ao seu nome.
Na sua visão, a direita tem propostas melhores para pautas que preocupam
esse grupo, como segurança pública e combate às drogas.
"Falta o quê? A gente comunicar melhor. Não dá para compreender
como é que as pesquisas mostram, por exemplo, que as mulheres estão votando
mais lá do que aqui. As pautas das mulheres são as pautas que nós
defendemos", disse Flávio.
"Pergunta para uma mãe se ela quer o filho drogado. É a direita ou
a esquerda que é contra as drogas? A esquerda faz programa de liberação de
drogas."
Segundo a cientista política Luciana Veiga, professora da Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), há uma tendência global entre as
mulheres em rejeitar candidatos mais à direita.
O que afasta as mulheres desse campo, ressalta, não são necessariamente
as pautas conservadoras, mas a forma como esses políticos respondem aos
problemas que preocupam o público feminino.
"As mulheres, em geral, tendem a fugir dos candidatos da extrema
direita populista. Não é nem porque as mulheres não sejam conservadoras. O que
acontece é que elas tendem a ser menos agressivas e gostar menos do ataque, do
confronto", diz Veiga.
"No caso europeu, por exemplo, elas podem até ser contra
imigrantes, mas daí a estigmatizar o imigrante, agir de maneira agressiva
[contra esse grupo], a maioria não apoia. No caso brasileiro, podemos ver isso
na pauta dos costumes."
A posição sobre aborto no Brasil é um exemplo desse raciocínio. Uma
pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto Update indicou que 75% das mulheres
eram contra a descriminalização do aborto.
Por outro lado, 72% eram contra punir gestantes que interrompem a
gravidez fora das previsões legais — e, mesmo entre as que se declararam de
direita na pesquisa, a posição contra punições era majoritária (61%).
O mesmo levantamento revela que a preocupação com a segurança pública e a violência não é exclusiva das mulheres conservadoras. O tema foi apontado como um dos três principais problemas do país por 77% das mulheres.
O Instituto Update é uma organização sem fins lucrativos que atua na
promoção da inovação política e do fortalecimento da democracia. Recentemente,
publicou uma nova edição da pesquisa "Mulheres em Diálogo", focada em
violência e segurança pública.
"Para muitas mulheres, a segurança pública tem a ver com política
de cuidado, com iluminação pública, com transporte seguro, proteção social,
acesso à Justiça. Então, não existe uma única definição de segurança pública
para as mulheres", afirma Carolina Althaller, diretora-executiva do
Instituto Update.
"A literatura [sobre o comportamento feminino] mostra que as
mulheres tendem a adotar essa visão mais ampla de segurança, só que as
propostas da direita são todas com ênfase na repressão ao crime
organizado."
Na visão de Jairo Nicolau, Jair Bolsonaro enfrentou uma resistência
maior entre as mulheres já em 2018 devido "à sua biografia e seu histórico
de posições machistas". Depois, analisa o pesquisador, a rejeição feminina
cresceu ainda mais devido às ações do seu governo, como a condução na pandemia
de covid-19.
"O fato de ele ter sido contra as vacinas afetou muito a
popularidade dele, porque as mulheres, afinal, queiramos ou não, são as mais
responsáveis pelo cuidado em geral dos filhos, dos familiares, dos pais. E,
naquele momento de crise, a vacina era fundamental para o país", diz
Nicolau.
"Então, o que era rejeição à figura física, ao CPF Jair Bolsonaro,
se transformou em rejeição ao CNPJ, ao seu governo. E, agora, essa rejeição
passou para o filho. Ele herdou muitos votos do pai, mas também essa
rejeição."
A movimentação de Flávio
Consciente do desafio, Flávio tem mirado o eleitorado feminino com
conteúdo em suas redes sociais e em atos de pré-campanha.
No início de agosto, por exemplo, disse que indicará homens e mulheres
ao Supremo Tribunal Federal (STF), caso eleito — a promessa contrasta com a
postura de Lula, que indicou três homens para a Corte em seu terceiro mandato,
o que acabou reduzindo a participação feminina do STF de duas ministras para apenas
uma (Cármen Lúcia), após a aposentadoria de Rosa Weber.
Por outro lado, Flávio surpreendeu ao escolher um homem de pouca
projeção nacional, o deputado Alfredo Gaspar (PL), para ser seu candidato a
vice-presidente, após grande expectativa de que chamaria uma mulher para
integrar sua chapa.
Flávio tentou trazer nomes como a senadora Tereza Cristina (PP) e a
ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos), mas ambas foram
impedidas de concorrer com o senador porque seus partidos não aprovaram a coligação
com o PL, optando por manter a neutralidade na disputa presidencial.
Não foi o primeiro revés de sua candidatura. Em junho, um vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) caiu
como uma bomba na pré-campanha. Na gravação, ela explicava sua falta
de engajamento em apoio a Flávio na corrida presidencial, dizendo que se sentiu
maltratada por ele quando foi escanteada das negociações eleitorais do PL no
Ceará.
Apesar da sua oposição, a sigla decidiu apoiar a candidatura ao governo
de Ciro Gomes (PSDB), político que é forte crítico de Jair Bolsonaro. Além
disso, o partido rejeitou lançar ao Senado sua afilhada política Priscila Costa
(PL), vereadora mais votada de Fortaleza.
A ruptura entre os dois é apontada como um dos fatores que provocou a
queda de Flávio nas pesquisas eleitorais, ao lado do escândalo Dark Horse,
filme em homenagem a Jair Bolsonaro que recebeu recursos do banco Master, após
negociação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Cerca de um mês depois, em julho, o senador pediu desculpas a Michelle,
vista como um possível trunfo para atrair mais votos femininos. Até o momento,
porém, a primeira-dama segue resistente a mergulhar em sua campanha, em um
contexto de fortes embates internos dentro do bolsonarismo, outro fator que
teria motivado o vídeo de rompimento com Flávio.
Um desses ataques veio de Paulo Figueiredo, que mora nos Estados Unidos
e é neto de João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar
(1964-1985).
Em uma live, no final de junho, ele chamou Michelle de
"feminista", em tom crítico, e disse que "mulheres votam
estatisticamente mal, principalmente mulheres solteiras".
Depois, em um post na rede social X, afirmou que "nem sempre foi
assim" e que a suposta piora do voto feminino "tem a ver com o avanço
desta ideologia demoníaca feminista que está destruindo a vida das
mulheres".
Flávio Bolsonaro emitiu nota em que repudiou a fala de Figueiredo, um
aliado próximo. Ambos estiveram juntos na Casa Branca, em maio, quando foram
recebidos pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Quando o Paulo Figueiredo traz essa fala absurda, de que as
mulheres votam mal, é porque, na visão dele, votar na esquerda é votar mal. De
fato, as mulheres estão caminhando para a esquerda, gradualmente", nota
Luciana Veiga, da Unirio.
Segundo a cientista política, mudanças sociais estão por trás desse
movimento, inclusive o aumento dos divórcios.
"A teoria [acadêmica] diz que as mulheres, a princípio, seriam mais
conservadoras do que os homens numa sociedade em que elas estariam muito
voltadas para a socialização das crianças, para dentro de casa", ressalta.
"Mas, na medida em que elas fossem entrando no mercado de trabalho,
fossem ganhando mais autonomia, inclusive em relação ao divórcio, essas
mulheres tenderiam a caminhar mais para a esquerda."
Para Veiga, esse processo tem ocorrido de forma gradual com as mulheres
brasileiras, que permanecem majoritariamente conservadoras.
Na sua visão, o aumento da diferença nas intenções de voto entre
mulheres e homens não decorre de uma virada brusca delas à esquerda, mas de
"uma guinada para a direita muito forte" do eleitorado masculino.
Para Carolina Althaller, do Instituto Update, as mudanças no eleitorado
feminino não significam que o apoio majoritário a candidatos da esquerda está
garantido: "Nenhum campo político pode assumir que já conquistou esse
eleitorado".
"No caso do governo Lula, há agendas que costumam encontrar maior
ressonância entre parte das mulheres, principalmente quando a gente fala de
políticas sociais, de combate à fome, da ampliação do acesso a serviços
públicos, das iniciativas voltadas para igualdade de gênero, o próprio
Ministério da Mulher e os projetos de enfrentamento à violência", diz
Althaler.
"Mas, efetivamente, tem temas determinantes que o governo ainda não
tocou. A segurança pública é um deles. Feminicídio não é tudo [que preocupa as
mulheres nesse tema]."
Ela também nota um incômodo com a falta de representação feminina nos
diferentes espectros políticos: "Existe um cansaço com isso, só
porta-vozes homens o tempo inteiro falando do que fazer das nossas vidas".
Durante a convenção nacional do PT que oficializou a candidatura de Lula
à reeleição, não havia mulheres previstas para discursar. O presidente notou o
problema e, de improviso, pediu que a primeira-dama Rosângela da Silva, a
Janja, se pronunciasse.
"Não é possível que a gente tenha esquecido do principal evento da
nossa campanha, não ter colocado uma mulher para falar", afirmou Lula.
Do lado de Flávio, sua mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro,
fez seu primeiro discurso em um evento político na convenção do PL que
oficializou a candidatura do senador, dizendo que estava ali "como mulher
e mãe".
Flávio discursou em seguida e começou agradecendo o apoio de Fernanda,
que estava ao seu lado, e depois agradeceu e abraçou sua mãe, Rogéria, que
estava do outro lado: "Se estou aqui hoje, gente, é também para honrar
todas as mães desse Brasil".
(Fonte: BBC)

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