"Essa é uma eleição em que as pessoas estão
desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de
aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos",
afirma.
"Talvez a gente tenha a maior taxa de
abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá."
Mas Nicolau pondera que nem toda abstenção
representa uma decisão deliberada de não participar da política.
Em seu livro O país dividido, publicado em
junho pela editora Zahar, o cientista político dedica um capítulo a analisar
quem são os eleitores que deixaram de comparecer às urnas nas seis eleições
presidenciais entre 2002 e 2022.
Os dados mostram que a abstenção não se distribui
de maneira uniforme entre os eleitores — o que também dificulta prever quem
poderia ser mais afetado por uma eventual alta neste ano.
"As mulheres comparecem mais, então o
comparecimento feminino favorece o Lula.
Mas as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos. E isso prejudica o
Lula", afirma.
Nicolau também chama atenção para outro fator: o
custo de não votar ficou menor. Com a facilidade para justificar a ausência e
as consequências relativamente pequenas de não comparecer às urnas, o Brasil
estaria caminhando, na prática, para uma espécie de voto facultativo.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - Temos visto um aumento
consistente da abstenção nas últimas eleições. Houve um recorde no primeiro
turno de 2022, 32 milhões de pessoas não votaram. A gente se acostumou a
associar essa abstenção ao desinteresse pela política. Nas suas pesquisas, esse
é o principal fator que explica as abstenções?
Jairo Nicolau - Uma
parte expressiva dessas abstenções é o voto de pessoas que já têm a opção de
não votar, ou seja, o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos, e o
número de pessoas com mais de 70 anos aumenta a cada eleição. O envelhecimento
é um fator que tem mudado o perfil do eleitorado brasileiro. Então, o primeiro
fator é esse: pessoas que não vão votar porque não são mais obrigadas, já se
descolaram, vamos dizer assim, da política.
Depois da abstenção dos não obrigados, tem a das
pessoas que estão fora do domicílio eleitoral. Em geral, são pessoas que
mudaram de cidade e não transferiram o título. São milhões de pessoas nesse
caso, seja um jovem que sai de uma cidade para estudar em outra, uma pessoa que
vai trabalhar em outro Estado e não transfere o título. E claro, tem as pessoas
que têm problemas no dia: adoecem, são obrigadas a trabalhar fora de casa,
enfim.
Mas tem uma parte de pessoas que definitivamente
toma uma decisão política, semelhante à que existe em outros países, e pensa:
"Todos os candidatos são iguais, eu não me interesso, não acredito mais em
ninguém, vou ficar em casa". A questão é que nós não sabemos quanto desse
total de 32 milhões de [pessoas que deixaram de votar em] 2022 são de pessoas
que, deliberadamente, praticam uma abstenção política. A gente não sabe, não
tem pesquisa sobre isso, nem uma estimativa. Mas diria que não é o grupo mais
expressivo.
Isso não quer dizer que não venha a ser. Em uma
eleição como a deste ano, em que o interesse está baixo, a oferta de candidatos
também está ruim, as pessoas vão ficar em casa.
BBC News Brasil - O senhor acha que vamos ter um
crescimento e talvez até mesmo um recorde de abstenções nas eleições deste ano?
Nicolau - Eu acho que
vai ter sim um crescimento do número de eleitores que se abstiveram. Agora,
quanto é esse crescimento? Quantas pessoas já aprenderam que a consequência do
não voto é mínima para a vida delas? Sobretudo, se elas não são de classe média
para cima, não precisam do passaporte, não precisam fazer um concurso, por
exemplo, e pensam: "Ah, tem o e-Título, eu justifico no meu computador, no
meu celular aqui, e não vou precisar do título, de estar em dia com as minhas
obrigações junto à Justiça Eleitoral. Então pronto, vou ficar em casa". Se
um dia essa pessoa precisar de um comprovante para fazer um concurso, ela vai
lá na Justiça e resolve.
Essa é uma eleição em que as pessoas estão
desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar,
num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos. Mais nulo, que
parece ser uma decisão mais enfática de rejeição, você manda um recado.
BBC News Brasil - Então tem uma questão de
desinteresse, mas o próprio sistema tornou mais fácil não votar...
Jairo Nicolau - As
pessoas estão percebendo que hoje o custo de não votar, o custo no sentido das
implicações do ato, quanto também da multa, é risível. Se a Justiça Eleitoral
ou a elite política quisesse dar mais peso à obrigatoriedade, bastava botar R$
120 de multa. Ninguém ia faltar. Além disso, antes tinha que ir até a seção
eleitoral justificar, até uma agência dos Correios. Ou ir até à seção eleitoral
para votar e anular. Agora, o e-Título facilitou muito a abstenção. Talvez a
gente esteja caminhando para uma espécie de voto facultativo não dito.
BBC News Brasil - O senhor mencionou esse desânimo
com os candidatos. Pela terceira vez desde 2018, temos de um lado um Bolsonaro
e, do outro, um candidato do PT — com o Lula nas duas últimas eleições. Essa
repetição aumenta o desinteresse das pessoas em votar?
Nicolau - É uma eleição
que... digamos assim, o mercado eleitoral está pobre. O Lula, pela primeira
vez, não vai ter um adversário no campo progressista, centro-esquerda. O outro
lado aparece com quatro candidatos muito radicais à direita, são direita
inquestionável. E os eleitores centristas, de classe média, querem algo mais
moderado para o país, que não querem Lula nem Bolsonaro, nem PT ou direita. E
isso faz com que uma parte dos eleitores não vote. É uma posição respeitável, é
instinto: se é um ou outro, eu anulo. Então acho que esse cenário de repetição
dificulta sim, é uma espécie de terceiro turno de 2022.
Mas eu percebo, pelo menos até agora, que tem um
clima diferente. Parece que houve um cansaço, não só com os candidatos, mas de
falar de política. Exauriu o Brasil. Pela minha experiência, e eu tento não
ficar muito enviesado com a minha experiência, por isso tenho conversado com
muita gente que faz pesquisa qualitativa Brasil afora, militantes, quem faz
campanha, é que tem alguma coisa diferente nessa eleição, e não é só na
conversa e interesse para a presidencial.
A presença de propaganda na rua demorou, está
começando agora, mas está acontecendo num momento muito mais tardio comparado
com eleições anteriores. Acho que talvez aquele ciclo de uma década, digamos
assim, do começo dos anos 10 até começo dos anos 20, a gente tenha tido uma
década de hipermobilização política. A explosão das redes sociais possibilitou
essa comunicação fácil entre as pessoas, e pode estar havendo um recuo. Este
ano, as pessoas estão num grau inferior de conversa, ou até em silêncio.
Ninguém está falando de política, o que é estranho.
BBC News Brasil - Em 2022, a gente teve uma redução
no número de votos nulos e brancos. As pesquisas mostram que, este ano, esse
grupo está em cerca de 7%, junto com aqueles que já disseram que não vão votar
para presidente. Existe uma diferença entre esse eleitor que decide não ir
votar e o que vai, mas vota em nulo ou branco?
Nicolau - Do ponto de
vista de pesquisa, eu desconheço. O fato é que, por muito tempo, como a taxa de
votos nulos e brancos no Brasil era muito alta, a gente especulava que isso era
uma espécie de resposta ao voto obrigatório. Se eu sou obrigado a votar, mas eu
não tenho interesse em política, eu não quero ir votar, eu vou lá e anulo o
voto.
Muita gente diz que, se nós não tivéssemos o voto
obrigatório, talvez nós tivéssemos um número de votos brancos e nulos menor.
Essa foi uma teoria vigente há muito tempo. Mas, na última eleição, caiu muito
o número de votos nulos e brancos para presidente. Será que caiu porque as
pessoas estavam mais satisfeitas com a política? Não é o que me parece.
BBC News Brasil- Pensando nesse mercado eleitoral,
a gente tem, entre os candidatos, o Augusto Cury, que ascendeu após o primeiro
debate eleitoral e que hoje aparece em terceiro lugar nas pesquisas. Como o
senhor avalia esse movimento e o que isso revela sobre o eleitor em 2026?
Nicolau- O Cury ocupa um
espaço de um eleitor menos politizado, que não vê nas duas opções [Lula e
Flávio Bolsonaro] algo, digamos assim, muito animador. E não tem nessa eleição
candidato dos partidos tradicionais ocupando esse lugar — o PSD optou por um
candidato muito à direita; o Novo, um candidato muito à direita; o Renan
Santos, que é uma novidade também por ser jovem, mas que também assumiu uma
pauta muito à direita. Ou seja, ninguém se moveu para o centro.
Então o Cury acaba sendo quase a última
possibilidade de alguém moderado, centrista, que foge da polarização, ou que
não tem um discurso radical à direita como os outros, que não fala de políticas
duras. Mas não acho que ele tenha muito espaço mais para se apresentar para o Brasil
e crescer. O tempo de TV dele em horário eleitoral é quase nada, ele ainda é
desconhecido de grande parte dos eleitores, e a gente não está tendo tantos
debates entre os candidatos nesta eleição. O espaço dele fica nas redes
sociais, e acho que ele atingiu o teto do público atingível para o tipo de
perfil que ele tem para prosperar.
Para mim, ele seria um fenômeno se chegar ali
próximo de 10% dos votos válidos. Ele se tornaria ali a figura central do
segundo turno e sinalizaria para uma parte dos partidos tradicionais, que tem
um mercado no Brasil não preenchido por pessoas que estão cansadas de PT e PL,
direita e esquerda. Vamos ver até onde vai.
BBC News Brasil- O mês de setembro tem sido tomado
pela crise no STF e, como o senhor mesmo mencionou, isso sequestrou o debate
sobre as eleições. Essa crise também pode influenciar no número de abstenções?
Nicolau - A crise do STF
pode ter piorado um pouco o interesse das pessoas na política, aumentado a
descrença, o ranço. Para mim, o pior que essa crise fez foi reforçar essa ideia
de descolamento de uma parte do Brasil da sua elite, e o pensamento de muitas
pessoas de que a elite política brasileira é toda igual. Então, é plausível
apostar no aumento da abstenção política, essa que a gente sabe que é pequena,
mas ela pode se alargar. Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas
eleições gerais de 2002 para cá.
Apostaria que a crise no STF ajuda num certo
enfado. Foram 15 dias, talvez até mais, em que o país só conversou sobre isso.
Uma campanha eleitoral que já é curta, de 50 dias, em um terço dela, a atenção
das pessoas foi consumida para olhar para isso, para dez ministros e deixar de
pensar em questões de política pública. Então, assim, independentemente do
efeito sobre a decisão do eleitor, ela teve um efeito sobre a campanha,
atrapalhou muito. Ficamos numa espécie de não campanha, talvez a maior não
campanha da história das eleições presidenciais desde a redemocratização. Não
houve campanha. Primeiro porque as pessoas não se interessavam, depois porque
entrou o Supremo e, terceiro, que o tempo ficou curto. Enfim, é uma eleição
muito pobre.
BBC News Brasil- Um aumento da abstenção pode
prejudicar mais um candidato do que outro?
Nicolau - Há um lado
dizendo que é a direita a mais prejudicada, e um outro lado, dizendo que é a
esquerda. A direita, porque as mulheres comparecem mais, então o comparecimento
feminino favorece o Lula. Mulheres vão votar numa taxa bem maior, sobretudo as
mulheres de média para alta escolaridade. Por outro lado, as pessoas de baixa
escolaridade comparecem menos para votar. Isso prejudica o Lula.
Isso a gente só vai saber, a geografia da
abstenção, se pega a grande cidade, se pega redutos do Lula depois da eleição,
mas previamente não tem ninguém que eu poderia cravar que a abstenção vai
prejudicar ou favorecer. Os candidatos estão trabalhando para levar os seus
nichos eleitorais para as urnas, eles são inteligentes, os estrategistas estão
mirando nesses grupos.
BBC News Brasil - As pesquisas de intenção de voto
mostram que esta pode ser uma eleição bem apertada, com Flávio e Lula
alternando aí na liderança do segundo turno. Nesse cenário, um aumento da
abstenção pode ser decisivo?
Nicolau - Não diria que
decisiva. Se ela for igual, o mesmo padrão, se ela não inclinar para um dos lados...
Se crescer entre os pobres e crescer entre as mulheres, um anula o outro. O que
afeta o candidato é se a abstenção no Nordeste for altíssima, se a abstenção em
São Gonçalo for altíssima. Se, por alguma razão, os eleitores de média
escolaridade não forem — isso afeta grupos em detrimento de outros.
Mas a gente não sabe previamente onde estão esses
segmentos. Eu não diria que a abstenção é decisiva porque eu não sei como ela
vai se concentrar. Ela vai ser certamente um sinal que os eleitores mandam lá para
Brasília de "Chega, estamos cansados". Ou não. Pode ser que, de
última hora, os eleitores vão lá e votem. Mas a minha intuição é que a
abstenção deve subir.
BBC News Brasil - E é possível reduzir a abstenção
dos eleitores?
Nicolau - Não vejo como.
As campanhas já foram feitas, campanhas cívicas, do TSE, dos partidos. O que eu
acho que a gente tem que aprender é que, em todas as democracias, há um
contingente de pessoas que não gostam de política, que não querem participar,
que não têm interesse em acompanhar a política, e isso se traduz, nos países
que têm voto facultativo, nas pessoas que ficam em casa porque acham que
política não faz diferença para a vida delas. Isso é muito grande em muitos
países, como Estados Unidos, Inglaterra. Agora, no Brasil, a gente não sabe o
tamanho desse contingente porque nós obrigamos as pessoas a se registrarem para
votar, porque nós usamos o voto compulsório.
Sempre vamos ter, seja com voto compulsório, seja
com voto facultativo, um contingente de pessoas que não quer participar. Isso
não significa que os partidos, que os órgãos de comunicação, que as escolas não
devam incentivar e estimular as pessoas a acompanharem política e a votar, mas
a participação plena, a participação maior do que a gente tem hoje, eu acho difícil.
Inclusive, o Brasil tem uma das taxas de
comparecimento mais altas no mundo. Se oito de cada dez inscritos forem votar,
isso já é bastante comparado a outros países. Então, eu não tenho muita ilusão
de que a gente vá mudar isso. Pelo contrário, acho que a tendência é que, à
medida que os eleitores vão percebendo que o voto facultativo está se impondo
na prática no Brasil, eles fiquem em casa.
(Fonte:
BBC)



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