Localizada
no canteiro do Condomínio Três Américas, a árvore da rua Doutor Vila Nova, 199,
tem uma copa que avança para o espaço público, fornecendo sombra aos pedestres,
além de abrigar espécies de pássaros como sabiás-laranjeira, bem-ti-vis e pica
paus de topete. Trata-se de uma ficus elastica, de origem asiática,
que possui mais de 50 anos e 20 metros de altura.
Em
reunião condominial realizada em fevereiro deste ano, 25 proprietários votaram
pela remoção da árvore. Apenas cinco foram contrários. De acordo com nota emitida pela
síndica, a decisão foi embasada na consultoria de cinco especialistas,
segundo os quais o exemplar é inadequado para o local e apresenta riscos devido
ao seu porte e falta de estabilidade. O corte foi autorizado pela Prefeitura e
está previsto para acontecer neste mês de abril.
Porém,
como a árvore e seus efeitos não se limitam ao espaço privado, a notícia gera
comoção entre os moradores do bairro. Gabriela Ribeiro, de 39 anos, lembra que
a árvore faz parte dos cenários da sua infância, e sempre chamou atenção pela
“grandiosidade”. “É um absurdo removerem a árvore. Não é justo matarmos o pouco
do verde, da natureza, que temos na cidade”, lamenta.
Ivan
Cotrim, de 75 anos, morador da região há 43 anos, relata que a árvore sempre
foi uma referência. “Até para indicar para as pessoas que vinham para a minha
casa, eu digo que é na esquina onde tem uma árvore frondosa, maravilhosa”.
“Brincava na praça com as crianças, depois a gente se cobria do sol, ali na
esquina. Tive um contato sempre muito feliz em estar próximo dessa árvore.”
Regina
Petti, moradora do prédio do bairro há 43 anos, lembra de sentar embaixo da
árvore para conversar com os vizinhos e o próprio porteiro. “Uma época, eu
trouxe umas mudas de flor para colocar naquelas raízes, que são enormes, formam
um vaso entre uma raiz e outra”, recorda. Regina levanta a possibilidade de
reativar uma “passagem de pedestre por trás da árvore”, como antigamente, e
reintegrar a árvore ao espaço público. Dessa forma, a preocupação dos
condôminos com “os gastos e responsabilidades em relação à árvore” poderia ser
resolvida com a doação da área para a prefeitura.
Em
2014, uma mulher morreu de traumatismo craniano pela queda de um galho da
árvore, o que motivou a formação de uma comissão de moradores para investigar o
seu estado. Segundo as pessoas favoráveis ao corte, a remoção é necessária para
garantir “a segurança de todos” e evitar novos problemas financeiros, como a
indenização paga pelo condomínio à família da vítima.
“Importante
ressaltar que, em substituição à árvore removida, será plantada uma espécie de
mesmo porte, porém adequada para o local. Essa escolha garante a manutenção da
arborização, ao mesmo tempo em que evita riscos futuros, visto que a árvore
atual não é apropriada para o espaço em que foi plantada”, afirma nota assinada
pela síndica.
Abaixo
assinado e ação no MP pedem laudo independente
Contrário
à remoção, o Coletivo de Meio Ambiente Vila Buarque aponta como motivador da
queda do galho uma poda que teria sido mal feita há mais de uma década. O grupo
aponta que o manejo adequado do exemplar evitaria novos incidentes e permitiria
que as funções ecológicas da árvore se mantivessem com ela em pé. Neste mês, o
grupo lançou um abaixo assinado e
entrou com ação no Ministério Público de São Paulo (MPSP) para exigir a
suspensão do corte até a realização de um laudo independente.
Segundo
o coletivo, o laudo contratado pelo condomínio é superficial, tendo apenas
analisado a árvore por fotos, sem estudos aprofundados, além de ter sido
contratado pela parte interessada, que deseja evitar gastos, preferindo optar
por seu corte definitivo.
Um
novo laudo teria como objetivo reunir informações que ajudem a decidir se o
manejo adequado conseguiria evitar a remoção. Diante da recente onda de calor
enfrentada pela cidade e da queda de árvores ocorridas nas tempestades de
março, o grupo planeja que a árvore se torne modelo de cuidado com a área verde
na cidade.
Segundo
o coletivo, a própria remoção pode ter impactos ambientais inesperados, com o
apodrecimento das raízes, devendo gerar novos gastos ao condomínio. Além disso,
o grupo aponta que, com a compensação, levaria décadas para que um novo
exemplar tivesse a mesma função ambiental cumprida pela árvore atualmente, algo
preocupante diante do cenário de emergência climática, com seus eventos
extremos e ondas de calor.
Manejo
adequado pode evitar remoções
Especialistas
ouvidos pelo Brasil de Fato criticam a falta de gestão
adequada da área verde da cidade, que prioriza a poda e a remoção de árvores,
quando o correto seria acompanhar seu histórico e cuidar de forma permanente
dos exemplares. Para eles, o corte deve ser considerado em último caso, quando
não há alternativas para manter o exemplar saudável em pé.
“Os
cortes de árvores costumam ser priorizados uma vez que as alternativas
locacionais não são estudadas com seriedade e as normativas vigentes são
permissivas quanto ao corte de árvores adotando parâmetros que não levam em
consideração as reais e preciosas funções ecossistêmicas desses seres no
ecossistema urbano”, avalia a biourbanista e arquiteta Elisa Rocha.
Sobre
a árvore da Vila Buarque, Elisa define o caso como “bastante delicado e
complexo” pois há fatores sociais e ambientais relevantes a se ponderar.
“Talvez a construção coletiva de um plano de risco e de manejo envolvendo uma
visão de curto, médio e longo prazos, poderia ajudar os envolvidos numa tomada
de decisão consensual ao invés de uma quebra de braço judicial”, sugere.
Segundo
a especialista, o Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU) prevê a
realização de planos regionais de arborização, envolvendo o manejo e o aumento
da área arbórea, mas o projeto ainda não saiu do papel. “No que tange ao manejo
da arborização urbana, assunto que é responsabilidade das Subprefeituras, a
atuação é muito mais nas emergências do que na prevenção e no planejamento.”
O arquiteto
Nabil Bonduki, vereador de São Paulo pelo PT, concorda que, num momento de
emergência climática, “toda a remoção de árvores, quando elas estão sadias,
precisa ser tratado com muito cuidado”. “Nós não estamos num momento em que
podemos abrir mão de arborização, porque ela cumpre um papel importante em todo
o ciclo ambiental.”
Para
Nabil, a prefeitura precisa “mudar totalmente” a sua política em relação às
árvores. “O risco de uma queda de árvore é o risco de vida para as pessoas,
para a circulação da cidade, para a energia elétrica. Nós temos que reduzir e,
se possível, zerar a queda de árvores”, diz. Nesse sentido, o especialista
defende a avaliação das árvores que estão inadequadas para, então, definir se a
política deve incluir remoção, poda ou tratamento. “A remoção tem que ser a
última alternativa. Para isso, nós vamos precisar ter essa política de tratar,
especificamente, de cada uma das árvores da cidade”, recomenda.
O
paisagista e botânico Ricardo Cardim concorda que o corte de árvores só deve
ser autorizado com estudos que esgotem as alternativas de manter os exemplares
em pé. O especialista critica o que classifica atualmente como um “festival de
erros na arborização urbana” pela gestão municipal. Um dos principais problemas
seria “a total e absoluta falta de manutenção periódica das árvores da cidade”.
“As árvores são plantadas e depois não são mais cuidadas, a não ser que haja um
pedido de um cidadão para uma poda”, afirma.
O
especialista aponta que o município sequer possui um inventário da arborização
para saber o que precisa ser administrado, existindo apenas uma contagem feita
por foto de satélite, em vez de um levantamento in loco para
identificar espécies, estado de saúde e medidas corretivas necessárias. A
solução indicada por ele seria efetuar o plantio de milhões de árvores para
tornar a cidade resiliente às mudanças climáticas e favorecer a regulação do
clima. Ricardo avalia que criar túneis verdes em todas as ruas da cidade é algo
de fácil execução e que falta apenas vontade política para isso.
Uma pessoa morreu
e duas ficaram feridas após uma árvore atingir um táxi na região central de São
Paulo, no dia 12 de março de 2025. Paulo Pinto/Agência Brasil
“Se
a gente começar a plantar árvores nas vagas de carro, tanto na região central
quanto na periferia da cidade, a gente vai criar corredores verdes com jardins
de chuva, junto de árvores grandes, nativas e que vão diminuir a temperatura da
cidade e regular o clima”, diz. “A gente pode talvez até voltar a ser a São
Paulo da garoa e não mais a São Paulo das tempestades violentas como tem sido
agora atualmente.”
Os
especialistas apontam que a política de compensação ambiental muitas vezes
substitui as árvores removidas por exemplares menores e distantes dos lugares
de onde foram retiradas. Os exemplares antigos, cuja relevância é maior quando
o assunto é clima, sofreram com podas mutiladoras, infestações de cupins ou são
de espécies inadequadas nas últimas gestões municipais, aponta Ricardo.
“Essas
árvores ou estão morrendo sem substituição, ou são substituídas por árvores
anãs, que ficam abaixo da fiação elétrica e não crescem, mesmo depois de
adultas”, relata o especialista. “Então, elas não funcionam para serviços
ambientais do município, para o meio ambiente do município, porque a árvore anã
equivale apenas o galho de um árvore grande”, diz Ricardo, que define a
situação como “um apagão verde”.
“A
cidade está virando um deserto e esse deserto é o que gera as ilhas de calor.
As ilhas de calor é o que geram os eventos climáticos extremos, que cada vez
estão acontecendo com mais intensidade, deixando os paulistanos sem luz”. Em
janeiro, cerca de 140 mil de casas ficaram sem luz na cidade de São Paulo
durante a tempestade, segundo a concessionária Enel.
Ações
da Prefeitura
Em
nota enviada à reportagem, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA)
afirma que as ações de manejo de árvores em São Paulo ocorrem ao longo de todo
o ano e contam com 131 equipes. De março de 2020 a fevereiro de 2025, foram
podadas mais de 829 mil árvores, enquanto outras 64.950 foram removidas. Apenas
no ano passado, as podas somaram 164.021. Entre janeiro e fevereiro deste ano,
a prefeitura afirma ter sido responsável pela poda de 23.590 árvores e pela
remoção de outras 2.835.
Segundo
a gestão de Ricardo Nunes (PMDB), os cuidados no manejo incluem poda,
transplante e remoção quando a árvore está condenada, sendo que “as podas são
executadas respeitando a saúde das árvores, com um intervalo de três meses
entre cada uma”. A nota também informa que “todas as árvores passam por uma
inspeção prévia de um engenheiro agrônomo, que avalia e define o serviço mais
adequado para cada espécie”.
De
acordo com a prefeitura, o número de engenheiros agrônomos aumentou de 239, em
2021, para os atuais 394. “Com esse esforço, foi possível reduzir para cerca de
30% o estoque de pedidos para poda e remoção de árvores, que, em 2017, era de
81 mil ordens de serviço.”
Em
relação às quedas de árvores, a prefeitura informa que “em todo o ano passado,
o número de ocorrências registradas foi de 4.091, uma redução de 30% em relação
a 2023. De 2023 a 2024, foram plantadas “mais de 157 mil árvores nativas da
Mata Atlântica na cidade, considerando plantios de incremento, compensação e
reparação ambiental”.
“A
Defesa Civil atendeu, neste ano, 1.895 chamados para quedas de árvores até as
7h desta segunda-feira (24/3), dos quais 148 na área da Subprefeitura Sé, que
conta com 56 mil árvores cadastradas, todas elas vistoriadas periodicamente”,
informa a nota.
A
prefeitura informou que está atualmente desenvolvendo o Termo de Referência
para o Inventário Arbóreo, com o objetivo de “quantificar e qualificar as
árvores na capital”. Além disso, a cidade conta com o Plano Municipal de
Arborização Urbana (PMAU), que “tem vigência até 2040”.
Em
relação à árvore da Vila Buarque, a Subprefeitura Sé se limitou a informar que
“recebeu, em abril de 2024, um laudo técnico para a remoção do exemplar e
concedeu a autorização, com a exigência de plantio compensatório”. A permissão
tem validade de 12 meses, ou seja, vence em abril deste ano.
(Brasil de Fato)
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