quinta-feira, 12 de março de 2026

‘Feminicídio é o último ponto da linha de violências contra a mulher’: especialistas analisam aumento dos casos

O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios da última década: 1.568 mulheres foram assassinadas por razões de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Os dados, que escancaram uma escalada da violência, foram tema do videocast Três Por Quatro, da Rádio Brasil de Fato, com a doutora em demografia pela Unicamp e consultora em gênero e raça da Fundação Friedrich Ebert Brasil, Jackeline Romio, e a advogada especialista em direitos das mulheres e diretora do Me Too Brasil, Luciana Terra Vilar.

Jackeline Romio explica que o feminicídio é “o último ponto da linha de violências contra a mulher“. A tipificação do crime, em 2015, permitiu nomear e contabilizar essas mortes, mas os números ainda estão longe da realidade. “Se a gente vê os óbitos por assassinato de mulheres na saúde, são cerca de 3.500 mortes por agressão física. Cerca de 70% desses óbitos podem provavelmente ser feminicídios. A gente ainda tá longe de ser capaz de tipificar todos eles.”

A demógrafa aponta uma diferença crucial entre os dados da segurança pública e os da saúde. “O registro policial tem uma natureza do crime. Muitas vezes a delegacia, os investigadores, o próprio IML não são capazes de classificar esses óbitos como feminicídios, e eles entram como outras causas. Já na saúde pública, não precisa dessa classificação penal, entra como mortes por agressão física. E esse dado é muito maior, é o dobro.”

Romio destaca que o feminicídio nem sempre é previsível, mas há sinais. “Antes dá sinais, principalmente isolamento da mulher. Numa relação conjugal ou exconjugal, quando se começa a ter um isolamento completo, é uma bandeira vermelha.” Ela enumera outras estratégias dos agressores: controle das senhas do celular, e-mails, contas bancárias, chantagem com os filhos. “Muitas mulheres não têm acesso ao dinheiro delas. O agressor domina a conta bancária, e fica muito complicado sair de uma relação de agressão.”

Ela também reforça a importância de acreditar na palavra das mulheres. “Se elas têm medo de ser mortas, isso é um indicador de que podem realmente estar expostas a risco de morte. Esse medo não vem sozinho, vem de violência psicológica, patrimonial, de vários fatores.”

Um dos gargalos apontados por Luciana Terra Vilar é a chamada “rota crítica” que as vítimas percorrem. “Ela vai à delegacia e conta. Se houve lesão, vai ao IML e conta novamente. Depois volta à delegacia, depois é chamada para contar de novo no processo judicial. Muitas vezes, pedem estudo social, e ela conta para assistente social, para psicóloga.”

Esse processo desgasta e faz com que muitas mulheres desistam. “A narrativa da vítima não costuma ser linear. Num processo de pós-trauma, ela confunde fatos, não consegue falar sobre datas, horários. E isso é exigido dela.” A advogada defende a adoção de um modelo já utilizado em outros países, em que o depoimento é gravado na delegacia e usado durante todo o processo, evitando a revitimização.

Medidas protetivas: direito garantido, mas fiscalização insuficiente

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em média, 13,1% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva vigente no momento da morte — em estados como Acre, Mato Grosso e São Paulo, os índices são ainda maiores. Jackeline Romio explica a contradição: “Por mais que a gente tenha o direito de registrar a medida protetiva, não temos necessariamente a capacidade numérica de policiais, de rondas para monitorar essas medidas. Isso gera essas quebras.”

A demógrafa lembra que em Minas Gerais, por exemplo, há 853 municípios e apenas 14 delegacias da mulher. “Humanamente, o corpo policial não é capaz de fiscalizar a quantidade de necessidades que as mulheres têm. E isso gera as mortes, porque entre a fiscalização e o feminicídio, o tempo conta.”

Vilar complementa: “Nós falhamos na fiscalização. A tornozeleira eletrônica para agressores não é usada em todos os lugares. E mesmo com ela, a comunicação não é imediata. Vimos recentemente o caso de um agressor que tinha protetiva, entrou no shopping armado e matou a mulher dentro da loja onde ela trabalhava.”

Há ainda barreiras sociais e territoriais. “Muitas vezes não conseguem nem intimar o agressor, porque estão em regiões dominadas por organizações criminosas. O oficial de justiça não consegue entrar”, relata a advogada.

Vilar considera a Lei Maria da Penha “uma das três melhores leis de proteção às mulheres do mundo”, mas aponta que o problema está na aplicação. “Ela prevê medidas de proteção que muitas mulheres nem sabem que existem, como pensão provisória e questões de direito de família. Mas não temos varas híbridas de violência contra a mulher. A mulher fica peregrinando entre varas criminais e de família.”

Romio acrescenta: “Existe uma diferença entre o direito e a realidade. A medida só pode ser efetiva se tiver monitoramento. E nas periferias, nas zonas rurais, esse monitoramento é menor.”

As especialistas também criticam a forma como a imprensa e as redes sociais tratam os casos de violência. “Atualmente, a violência é televisionada”, diz Luciana. “Há dois pontos: um pode ser positivo para garantir a punição, como nos casos em que há filmagem em elevador. Mas, por outro lado, há exposição indevida, sensacionalismo. As notícias têm que ser vinculadas de forma responsável.”

Por sua vez, a demógrafa é mais enfática: “Sou completamente contra essa exposição exacerbada, como se fosse uma agressão eterna contra a mesma mulher, reprisando, reprisando. Isso naturaliza as violências, acostuma as pessoas a verem como entretenimento uma mulher sendo espancada, assassinada, arrastada.”

Para Vilar, “erramos na aplicação da lei, na estruturação, no acolhimento”. Ela defende mais mulheres em cargos de liderança no sistema de justiça — juízas, desembargadoras, promotoras, delegadas — e valorização das delegacias da mulher. “Há um problema estrutural enquanto sociedade, de sempre ter esse julgamento em crimes contra as mulheres, e um problema de estrutura, de políticas públicas e de resposta penal inadequada.”

Romio conclui com uma reflexão sobre a importância de uma ciência não neutra. “A estatística não é neutra, a política não é neutra. Se a gente puder fazer indicadores que incluam e exponham a problemática dos grupos mais vulneráveis, a gente avança na eficiência do Estado, na distribuição do bem comum, na possibilidade de planejar políticas públicas.”

“Quando você reduz a violência, a letalidade, você não está só apoiando aquela pessoa individualmente. Você está apoiando todo um desenvolvimento social do país, porque esses são indicadores de desenvolvimento social. As vidas importam para o crescimento do país”, acrescenta a demógrafa.

(Brasil de Fato)

 

 

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