Mas a lei basta
para frear o problema? Ao BdF
Entrevista a antropóloga Isabela Venturoza analisa os
limites da criminalização, a responsabilidade das big techs, a sedução dos
conteúdos machistas entre meninos cada vez mais jovens e a urgência de
políticas preventivas que envolvam os homens como parte da solução.
Venturoza
reconhece a importância dos projetos de lei, mas alerta que a criminalização
isolada não resolve o problema. “Só criminalizar não vai resolver. É uma parte
do caminho, pensando naquilo que não
há previsão legislativa hoje, principalmente na internet. Mas para
além disso, temos uma tarefa de falar com as instituições e com as empresas que
ganham dinheiro sem colocar limite nesses perfis criminosos.”
A antropóloga
defende a responsabilização não apenas dos indivíduos que monetizam conteúdo
misógino, mas
principalmente das big techs. “É preciso fazer uma conversa sobre
regulação das redes. Se a gente não tiver perspectivas socioeducativas de levar
esse debate de maneira preventiva — nas escolas, na família, nos espaços
religiosos, nos games, no futebol — a gente muda pouco a sociedade. Temos Maria
da Penha e a violência contra a mulher não se reduziu. Isso diz muito.”
Citando uma pesquisa do Netlab, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou 137 canais no
YouTube com conteúdo misógino e que monetizavam. Dois anos depois, 90% dessas
contas permaneciam no ar, com um crescimento de inscrições de 19,5 milhões para
mais de 23 milhões. “Quem está no topo dessas big techs? São caras com
perspectivas ultraconservadoras, muitas vezes criminosas. Por que essa galera
continua no ar mesmo com denúncias? Porque não há comprometimento dessas
empresas em barrar essa escalada”, questiona Venturoza.
Ela destaca que
muitos conteúdos não se apresentam abertamente como “masculinistas”. “Podem ser
coaches de masculinidade que falam algumas coisas, piadas machistas, conteúdos
que vão do soft ao hardcore. A gente tem que olhar para o que é machismo e misoginia
recreativa e o que é incitação ao crime. E saber que, mesmo com
o movimento feminista denunciando, eles continuam no ar.”
A trend “caso ela
diga não” é um exemplo do limiar entre a “brincadeira” e a violência concreta.
Jovens simulam pedidos de namoro e, diante de um “não” imaginário, reagem com
tapas, chutes, facas ou armas de fogo. “A piada é violenta e vai moldando a
subjetividade. Se a gente olhar para o Brasil, as piadas racistas, homofóbicas,
com mulher, as expressões que usamos — tudo isso lapida quem somos.”
Venturoza lembra
que, no caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, até homens que se
posicionavam criticamente contra o crime usaram expressões como “vão virar
mulherzinha na cadeia”. “Virar mulherzinha é ser estuprado. Nossa linguagem
também conforma a violência.”
A antropóloga
rejeita explicações simplistas. “Antes do online, já tínhamos grupos
homossociais entre homens que se reforçavam em perspectivas machistas. No bar,
no estádio, no futebol, nos grupos de WhatsApp. Quando os homens estão sozinhos
com outros homens, existe uma cultura estimulada ali dentro.”
Ela aponta que a
masculinidade é um lugar de provação contínua. “Você prova que é homem pelo
exercício da violência, por não demonstrar fraqueza. Pesquisas recentes mostram
que essa geração está ainda mais machista que as anteriores. A ideia de ‘ser
homem’ está calcada em exercer poder, ser respeitado, estar superior às
mulheres, ser provedor, ‘pegador’.”
Venturoza
contextualiza esse fenômeno como uma reação aos avanços feministas das últimas
décadas. “Tivemos grandes avanços nos anos 2000, com conquistas de direitos,
discussões sobre diversidade e inclusão. Mas depois veio uma contraonda, um
contrapoder que elegeu representantes superconservadores. Um discurso
ressentido colou com muita gente que se sentiu desautorizada.”
Apesar do discurso
de que “os direitos das mulheres avançaram demais”, os dados mostram o
contrário. “As mulheres continuam ocupando os piores índices em diferentes
frentes. A
violência contra nós não cai, enquanto outros crimes têm caído. A
letalidade dentro de casa cresceu. Há um descompasso entre a realidade material
e o discurso de ressentimento.”
Ela exemplifica
com a ocupação de espaços antes exclusivamente masculinos. “Como assim as
meninas agora querem ocupar a quadra de futebol? Desde sempre a gente jogava
sozinho. Existe um grupo que se sente desautorizado e vai tentar fazer a gente
andar para trás. E essa galera está no Legislativo, foi eleita para fazer lei e
é paga horrores para ir contra o avanço de direitos.”
Feminismo como luta por uma sociedade mais justa
Venturoza faz
questão de destacar que a luta feminista não é contra os homens, mas por uma
sociedade mais justa para todos. “A gente precisa dos homens se transformando
com a gente. O feminismo traz ferramentas para os homens viverem vidas mais
saudáveis, mais prazerosas. Quando você diz para um menino de 3 anos ‘homem não
chora’, você está destituindo ele do direito de expressar emoções.”
Ela coordena
grupos reflexivos com homens denunciados por violência contra a mulher e traz
um depoimento emblemático: “Um participante disse: ‘O homem só tem uma
marreta’. Quando ele está com medo, usa marreta; inseguro, marreta; triste,
marreta; até feliz, usa marreta. Pensar com lentes feministas é também um
benefício para os homens — redução de suicídio, de violência entre eles, que é
ainda maior.”
A antropóloga cita
o sociólogo Michael Kaufman e sua “tríade da violência masculina”: os homens
matam mulheres, matam outros homens e se suicidam mais que as mulheres. “Quando você
vê violência no campo, grilagem, ataques a povos originários, a
população em situação de rua, não são mulheres fazendo isso. São homens.
Trabalhar com todas essas frentes é urgente.”
Venturoza defende
que é preciso disputar o campo simbólico com homens que dialoguem na linguagem
dos meninos. “Por que não temos jogadores de futebol falando de equidade de
gênero? O que a gente vê são casos de estupro, contratação de criminosos, referências
como Robinho e
Daniel Alves. Precisamos de caras que os meninos queiram ser
parecidos e que falem sobre sentimentos, respeito, consentimento — não numa
perspectiva de bronca, mas de conversa.”
Ela ressalta que
muitos meninos que aderem a fóruns de ódio não estão bem. “Eles buscaram um
lugar para se sentir pertencentes, para ter algum poder, porque não foram
ouvidos em outros espaços. Não é para ser coitadista, mas para entender que
quando alguém rompe com o social de maneira tão radical, isso passa uma
mensagem sobre como ele está na sociedade.”
As meninas também
sofrem os efeitos dessa cultura. “Sofrem violência simbólica, física, passam
por estupro e não sabem dar nome, não sabem com quem falar, se sentem
envergonhadas.” Ao mesmo tempo, o movimento feminista fortaleceu espaços de
discussão. “Conseguimos circular mais discussões sobre direitos, o que
fortaleceu meninas em certos lugares. Mas também há meninas conservadoras,
atingidas por discursos como os das ‘trad wives’, que pregam um modelo de
feminilidade não feminista.”
Venturoza vê com
preocupação a tentativa de figuras como o
goleiro Bruno e o youtuber Dolabela de ingressarem na política.
“Não acho que seja risco, já está acontecendo. A questão é quem é judicializado
e quem não é. Tem um monte de cara ali que é autor de agressão. O discurso
conservador não está longe das práticas criminosas. E o mais preocupante é que
essa galera é eleita.”
Apesar do cenário,
Venturoza mantém a energia para continuar. “A gente que está em movimento
social e na academia sabe que nada é garantido. Precisamos continuar fazendo os
diálogos, disputando os campos, oferecendo escuta. E lembrando que os homens
são parte da solução. Eles podem deixar de ser cúmplices e passar a interromper
a violência.”
(Brasil de Fato)

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