sexta-feira, 13 de março de 2026

Misoginia: ‘Homens são parte da solução e podem interromper a violência’, analisa antropóloga

Enquanto o Brasil registra o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime — mais de 1.500 em 2025 —, casos como o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro e a trend “caso ela diga não”, que simula violência contra mulheres e está sendo investigada pela Polícia Federal, escancaram a escalada da misoginia no país. No Legislativo, mais de 30 projetos de lei buscam criminalizar o discurso de ódio e o desprezo às mulheres, como o apresentado pela deputada Duda Salabert (PDT-MG), que foca na incitação misógina organizada.

Mas a lei basta para frear o problema? Ao BdF Entrevista a antropóloga Isabela Venturoza analisa os limites da criminalização, a responsabilidade das big techs, a sedução dos conteúdos machistas entre meninos cada vez mais jovens e a urgência de políticas preventivas que envolvam os homens como parte da solução.

Venturoza reconhece a importância dos projetos de lei, mas alerta que a criminalização isolada não resolve o problema. “Só criminalizar não vai resolver. É uma parte do caminho, pensando naquilo que não há previsão legislativa hoje, principalmente na internet. Mas para além disso, temos uma tarefa de falar com as instituições e com as empresas que ganham dinheiro sem colocar limite nesses perfis criminosos.”

A antropóloga defende a responsabilização não apenas dos indivíduos que monetizam conteúdo misógino, mas principalmente das big techs. “É preciso fazer uma conversa sobre regulação das redes. Se a gente não tiver perspectivas socioeducativas de levar esse debate de maneira preventiva — nas escolas, na família, nos espaços religiosos, nos games, no futebol — a gente muda pouco a sociedade. Temos Maria da Penha e a violência contra a mulher não se reduziu. Isso diz muito.”

Citando uma pesquisa do Netlab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou 137 canais no YouTube com conteúdo misógino e que monetizavam. Dois anos depois, 90% dessas contas permaneciam no ar, com um crescimento de inscrições de 19,5 milhões para mais de 23 milhões. “Quem está no topo dessas big techs? São caras com perspectivas ultraconservadoras, muitas vezes criminosas. Por que essa galera continua no ar mesmo com denúncias? Porque não há comprometimento dessas empresas em barrar essa escalada”, questiona Venturoza.

Ela destaca que muitos conteúdos não se apresentam abertamente como “masculinistas”. “Podem ser coaches de masculinidade que falam algumas coisas, piadas machistas, conteúdos que vão do soft ao hardcore. A gente tem que olhar para o que é machismo e misoginia recreativa e o que é incitação ao crime. E saber que, mesmo com o movimento feminista denunciando, eles continuam no ar.”

A trend “caso ela diga não” é um exemplo do limiar entre a “brincadeira” e a violência concreta. Jovens simulam pedidos de namoro e, diante de um “não” imaginário, reagem com tapas, chutes, facas ou armas de fogo. “A piada é violenta e vai moldando a subjetividade. Se a gente olhar para o Brasil, as piadas racistas, homofóbicas, com mulher, as expressões que usamos — tudo isso lapida quem somos.”

Venturoza lembra que, no caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, até homens que se posicionavam criticamente contra o crime usaram expressões como “vão virar mulherzinha na cadeia”. “Virar mulherzinha é ser estuprado. Nossa linguagem também conforma a violência.”

A antropóloga rejeita explicações simplistas. “Antes do online, já tínhamos grupos homossociais entre homens que se reforçavam em perspectivas machistas. No bar, no estádio, no futebol, nos grupos de WhatsApp. Quando os homens estão sozinhos com outros homens, existe uma cultura estimulada ali dentro.”

Ela aponta que a masculinidade é um lugar de provação contínua. “Você prova que é homem pelo exercício da violência, por não demonstrar fraqueza. Pesquisas recentes mostram que essa geração está ainda mais machista que as anteriores. A ideia de ‘ser homem’ está calcada em exercer poder, ser respeitado, estar superior às mulheres, ser provedor, ‘pegador’.”

Venturoza contextualiza esse fenômeno como uma reação aos avanços feministas das últimas décadas. “Tivemos grandes avanços nos anos 2000, com conquistas de direitos, discussões sobre diversidade e inclusão. Mas depois veio uma contraonda, um contrapoder que elegeu representantes superconservadores. Um discurso ressentido colou com muita gente que se sentiu desautorizada.”

Apesar do discurso de que “os direitos das mulheres avançaram demais”, os dados mostram o contrário. “As mulheres continuam ocupando os piores índices em diferentes frentes. A violência contra nós não cai, enquanto outros crimes têm caído. A letalidade dentro de casa cresceu. Há um descompasso entre a realidade material e o discurso de ressentimento.”

Ela exemplifica com a ocupação de espaços antes exclusivamente masculinos. “Como assim as meninas agora querem ocupar a quadra de futebol? Desde sempre a gente jogava sozinho. Existe um grupo que se sente desautorizado e vai tentar fazer a gente andar para trás. E essa galera está no Legislativo, foi eleita para fazer lei e é paga horrores para ir contra o avanço de direitos.”

Feminismo como luta por uma sociedade mais justa

Venturoza faz questão de destacar que a luta feminista não é contra os homens, mas por uma sociedade mais justa para todos. “A gente precisa dos homens se transformando com a gente. O feminismo traz ferramentas para os homens viverem vidas mais saudáveis, mais prazerosas. Quando você diz para um menino de 3 anos ‘homem não chora’, você está destituindo ele do direito de expressar emoções.”

Ela coordena grupos reflexivos com homens denunciados por violência contra a mulher e traz um depoimento emblemático: “Um participante disse: ‘O homem só tem uma marreta’. Quando ele está com medo, usa marreta; inseguro, marreta; triste, marreta; até feliz, usa marreta. Pensar com lentes feministas é também um benefício para os homens — redução de suicídio, de violência entre eles, que é ainda maior.”

A antropóloga cita o sociólogo Michael Kaufman e sua “tríade da violência masculina”: os homens matam mulheres, matam outros homens e se suicidam mais que as mulheres. “Quando você vê violência no campo, grilagem, ataques a povos originários, a população em situação de rua, não são mulheres fazendo isso. São homens. Trabalhar com todas essas frentes é urgente.”

Venturoza defende que é preciso disputar o campo simbólico com homens que dialoguem na linguagem dos meninos. “Por que não temos jogadores de futebol falando de equidade de gênero? O que a gente vê são casos de estupro, contratação de criminosos, referências como Robinho e Daniel Alves. Precisamos de caras que os meninos queiram ser parecidos e que falem sobre sentimentos, respeito, consentimento — não numa perspectiva de bronca, mas de conversa.”

Ela ressalta que muitos meninos que aderem a fóruns de ódio não estão bem. “Eles buscaram um lugar para se sentir pertencentes, para ter algum poder, porque não foram ouvidos em outros espaços. Não é para ser coitadista, mas para entender que quando alguém rompe com o social de maneira tão radical, isso passa uma mensagem sobre como ele está na sociedade.”

As meninas também sofrem os efeitos dessa cultura. “Sofrem violência simbólica, física, passam por estupro e não sabem dar nome, não sabem com quem falar, se sentem envergonhadas.” Ao mesmo tempo, o movimento feminista fortaleceu espaços de discussão. “Conseguimos circular mais discussões sobre direitos, o que fortaleceu meninas em certos lugares. Mas também há meninas conservadoras, atingidas por discursos como os das ‘trad wives’, que pregam um modelo de feminilidade não feminista.”

Venturoza vê com preocupação a tentativa de figuras como o goleiro Bruno e o youtuber Dolabela de ingressarem na política. “Não acho que seja risco, já está acontecendo. A questão é quem é judicializado e quem não é. Tem um monte de cara ali que é autor de agressão. O discurso conservador não está longe das práticas criminosas. E o mais preocupante é que essa galera é eleita.”

Apesar do cenário, Venturoza mantém a energia para continuar. “A gente que está em movimento social e na academia sabe que nada é garantido. Precisamos continuar fazendo os diálogos, disputando os campos, oferecendo escuta. E lembrando que os homens são parte da solução. Eles podem deixar de ser cúmplices e passar a interromper a violência.”

(Brasil de Fato)

 

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