Parecia um sinal cósmico de derrota. Então voltei para o iPhone, joguei
meus fones com fio na gaveta e me juntei às hordas do Bluetooth.
Pode ser que eu tenha desistido cedo demais.
Recentemente, um movimento discreto vem crescendo, baseado em uma
verdade controversa: fones de ouvido com fio são melhores do que os de
Bluetooth. As vendas dispararam nos últimos meses.
Talvez os consumidores tenham percebido que, muitas vezes, conseguem
obter um som de melhor qualidade, e pelo mesmo preço, com um modelo com fio —
mas esse não é um movimento apenas entre os audiófilos, aquelas pessoas muito
exigentes com a qualidade do som.
Os fones com fio viraram uma tendência cultural, um ressurgimento que
alguns associam a uma reação maior contra a tecnologia.
Seja por motivos práticos, políticos ou estéticos, uma coisa é clara: os
fones com fio estão de volta.
"Eu me converti", diz Aryn Grusin, assistente social de
Portland, no Oregon, nos EUA, apaixonada por fones com fio.
Há alguns meses, ela pegou emprestado o par de fones antigos do noivo e
nunca mais voltou atrás. "Acho simplesmente reconfortante. Gosto de
mostrar ao mundo que estou ouvindo alguma coisa."
Grusin não está sozinha. Depois de cinco anos seguidos de queda, as
compras de fones de ouvido com fio explodiram na segunda metade de 2025,
segundo a empresa de análise Circana, e a receita com fones com fio cresceu 20%
nas primeiras seis semanas de 2026.
"Parece que muita gente está meio que se voltando contra a
tecnologia porque ela está ficando avançada demais", diz Grusin.
"Acho que existe um sentimento coletivo de: 'não gosto do rumo que
isso está tomando', e estamos todos voltando para o último lugar onde nos
sentíamos confortáveis."
'Está virando uma questão de classe social'
A qualidade do som pode ser uma grande vantagem da vida com fio, diz
Chris Thomas, editor especial do site de avaliações de fones SoundGuys.
"Essa é a tecla na qual venho batendo há muitos anos", afirma.
Segundo Thomas, os fones sem fio melhoraram muito, mas os melhores
geralmente vêm de marcas de nicho voltadas para audiófilos.
Quando se trata de produtos mais populares, daqueles que você encontra
em uma loja de eletrônicos, ele diz que você consegue um som melhor pelo mesmo
valor se optar por uma boa opção com fio.
Além disso, mesmo os melhores fones Bluetooth podem não entregar seu
desempenho máximo por causa de conexões ruins ou problemas de compatibilidade
com o seu dispositivo.
"Com um fio, você simplesmente conecta e funciona", diz
Thomas.
Mas a qualidade sonora não basta para explicar a tendência.
De alguma forma, o Bluetooth parece ter se tornado profundamente pouco
atraente. Não acredite só em mim. Pergunte à atriz e diretora Zoë Kravitz.
"Bluetooth não funciona", disse Kravitz em uma entrevista
recente — e não é só com fones de ouvido, mas com conexões Bluetooth em geral.
"Está estragando momentos importantes. Imagine quantas vezes você
está com alguém em um encontro, tentando criar um clima, e então precisa
'esquecer a rede'. Em um encontro!"
Na verdade, fones de ouvido com fio viraram agora um acessório de moda
indispensável em alguns círculos.
Há até uma conta popular no Instagram sobre o assunto chamada Wired It
Girls (algo como "as it girls dos fones com fio"), dedicada a
mulheres que parecem chiques e despreocupadas com os cabos pendurados nas
orelhas — de pessoas comuns a celebridades como as cantoras Ariana Grande e
Charli XCX.
Os fones de ouvido com fio se tornaram tão onipresentes entre ricos e
famosos que alguns já veem esses emaranhados de plástico e metal como um
símbolo cultural.
Um usuário de redes sociais publicou um tuíte viral com fotos dos atores
Robert Pattinson e Lily‑Rose Depp usando fones com fio. "Está virando uma
questão de classe", escreveu. "Usar fones sem fio 24 horas por dia me
diz que você não é dono de terras."
Claro, há algo libertador em ouvir música sem estar preso a um cabo. Mas
as baterias acabam justamente no pior momento. Os minúsculos fones do
tipo earbuds (intra-auriculares) se perdem. Os dispositivos
não emparelham.
"As pessoas dizem que é mais fácil, mas nunca parece mais fácil
para mim", diz Ailene Doloboff, uma editora de diálogos na indústria
cinematográfica em Los Angeles, nos EUA. "Com Bluetooth sempre tem uma
etapa a mais."
Os fones de ouvido com fio entram para uma lista de tecnologias
aparentemente obsoletas que voltaram com força nos últimos anos, justamente
quando mergulhamos na próxima era digital.
Pessoas jovens e mais velhas estão adotando produtos retrô como DVDs,
fitas cassete, antigas TVs de tubo e até máquinas de escrever. Em um show
recente, vi um cara na plateia gravando o espetáculo não com um celular, mas
com uma câmera de filme 16 mm dos anos 1970.
"Não sei por quê, mas todos nós, coletivamente, tivemos essa
virada. Acho que a presença da IA está deixando as pessoas mais
inquietas", diz Grusin.
"O que é irônico, de certa forma. Fico desconfortável com a
tecnologia e então quero usar outra tecnologia. Mas talvez os fones com fio
sejam o mais perto do analógico que conseguimos chegar."
O problema dos adaptadores
Se você optar por usar fones com fio, a questão passa a ser como
conectá-los.
Mas hoje já é possível comprar fones com fio que vêm com conexão USB ou
Lightning integrada. Ou então usar fones com o tradicional conector de 3,5 mm
por meio de um adaptador para a porta de carregamento.
A Apple removeu a entrada de fones de ouvido de seus telefones em 2016,
com o lançamento do iPhone 7, o que muitos viram como o fim da escuta com fio.
Mas nem mesmo a Apple abandonou totalmente os fones com fio. "Ah,
nós ainda vendemos esses", disse o diretor-executivo da empresa, Tim Cook
— o homem que acabou com a entrada de fones nos celulares — à minha colega da
BBC Zoe Kleinman há alguns anos. "As pessoas ainda compram."
Fui a uma loja da Apple no caminho de casa depois do trabalho para
comprar um par barato com fio e conexão USB. Um funcionário me disse que tem
vendido mais fones com fio do que nunca.
Passei alguns dias usando os fios. Gostei da sensação. Estar ligado ao
meu dispositivo me fazia sentir um pouco mais presente ao ouvir, e eles também
ficaram mais confortáveis nos meus ouvidos do que os fones mais pesados do meu
conjunto Bluetooth.
Mas nosso relacionamento foi curto.
Nunca perdi meu par de fones Bluetooth. O estojo dos meus AirPods é
volumoso o suficiente para que eu sempre perceba quando não está comigo.
Já os fones com fio, leves como uma pluma, não. Eles escaparam do meu
bolso em algum lugar nas ruas do meu bairro. Espero que tenham encontrado um
lar mais amoroso.
Determinado, pensei que um upgrade talvez me tornasse mais cuidadoso.
Então, visitei uma loja especializada em fones de ouvido em Nova York chamada
Audio 46, escondida em uma estreita fachada comercial.
Delaney Czernikowski, que faz avaliações de fones para o site da
empresa, me recebeu no balcão.
"Muita gente está aderindo à tendência. Eles chegam dizendo: 'Acho
que fones com fio são melhores, quero experimentar'", diz Czernikowski.
"Mas às vezes ficam preocupados em perder a conveniência do
Bluetooth. Eu digo que o Bluetooth pode ser muito bom — você não precisa abrir
mão disso."
Czernikowski me deixou experimentar alguns dos fones Bluetooth mais
sofisticados da loja, com uma qualidade de som incrível — e preços igualmente
impressionantes. Eram suficientes para fazer até os audiófilos mais devotos
babarem.
"Mas, para ser justa, os fones com fio — muitos deles — são
melhores e há muito mais opções para escolher", diz ela. "E eles têm
qualidades superiores que não ficam limitadas pela necessidade de ter
tecnologia Bluetooth dentro deles."
Eu pretendia comprar algo barato. Com cerca de um minuto de conversa,
porém, Czernikowski me convenceu a experimentar um par ao preço de US$ 130 (R$
675) de uma marca chinesa especializada, com um cabo grosso, bonito e trançado.
"Não faça concessões", diz ela. Eles soam excelentes pelo
preço, mas a BBC não recomenda produtos como parte do seu compromisso com a
imparcialidade. Então, você terá que fazer sua própria pesquisa.
Entreguei meu cartão de crédito, comprei um maldito adaptador USB para
usar com os fones e saí para a rua para plugá-los.
(Fonte: BBC)



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