"Estão no mesmo campo de batalha, mas batalhando um contra o outro", argumenta o líder da Igreja Resgatar, que tem quase 640 mil seguidores na plataforma de vídeos.
"É óbvio que a fé cristã não pode ter parceria
com a psicologia. São como água e óleo. Não tem como andar junto."
Em outro vídeo, César Augusto, pastor da Igreja
Apostólica Fonte da Vida, diz que as pessoas "podem frequentar psicólogo
ou seja lá o que for".
Mas recomenda aos quase 200 mil seguidores ali:
"Já experimentou ter o momento de uma consulta com o maior psicólogo do
mundo, que é Jesus?".
Em post publicado em seu canal, o bispo Walter
McAlister, da Igreja Cristã Nova Vida, até reconhece que "a psicologia tem ajudado muito o ser humano".
Mas faz uma ressalva.
"Recomendaria que [o cristão] consultasse um
psicólogo que também fosse cristão. Porque esses conflitos não resolvidos não
podem ser fundamentados apenas em comportamento, traumas de infância ou desejos
enrustidos. Alguns são de ordem espiritual."
Pastor evangélico, o senador Magno Malta (PL-ES) é
autor de uma proposta, atualmente em consulta pública, para instituir no Senado
uma Frente Parlamentar em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos
Cristãos.
Um dos pontos de seu projeto é que seja instaurada
uma mobilização para que sejam combatidas o que ele chama de "medidas
normativas que imponham restrições desproporcionais ao exercício profissional
em razão de convicções religiosas".
O Conselho Federal de Psicologia diz que acompanha
os debates sobre fé e a prática profissional e afirma ter um compromisso com o
respeito à diversidade de crenças e convicções.
Mas ressalta que nenhum profissional da área deve
se apresentar como "psicólogo cristão" para não "levar à crença
equivocada de que a prática é exclusivista ou baseada em dogmas, o que
contraria a universalidade e a laicidade da ciência psicológica".
A relação entre cristianismo e psicologia sempre
teve suas arestas. Para especialistas, a dificuldade desse diálogo nasce
justamente da concorrência do objeto tratado por ambas as searas: a psiquê
ou a alma humana.
O título do vídeo do pastor Mocellin é emblemático:
"Psicologia e fé cristã: irreconciliáveis". Ele é taxativo. Diz que a
psicologia é "o homem dizendo que não precisamos da Bíblia" e que
essa ciência não passa de "doutrina de demônios".
"A Bíblia diz que ansiedade é pecado. A
psicologia diz que é transtorno", argumenta.
"Só a Bíblia pode desnudar a alma humana. [O
pai da psicanálise, Sigmund] Freud se considerava aquele sujeito que veio para
desvendar a alma humana."
Autor do recém-lançado livro Cristianismo
Leve e pastor na Igreja Batista Filadélfia, o teólogo Pedro Pamplona
entende que terapias psicológica ou psicanalítica podem ser complementares
ao trabalho espiritual no cuidado com a
mente humana.
Mas, para ele, essa interface tem limites. Ele vê
"incompatibilidades" entre a atuação do terapeuta e o aconselhamento
religioso. "A Bíblia tem uma antropologia própria, que chamamos de
antropologia cristã."
Maneira própria
Pamplona defende que sua religião tem uma forma de
entender o ser humano e suas questões que foi dada por uma revelação de Deus.
"Essa antropologia cristã influencia o modo
como cuidamos das pessoas, como entendemos seus propósitos de vida, o efeito do
pecado em suas vidas e como lidamos com a diversidade de seus pensamentos,
emoções e questões", explica o pastor.
As diferentes psicoterapias abordam o ser humano a
partir de uma perspectiva conflitante com o que determina sua fé, diz ele.
"Essas antropologias podem ser bem distintas
da antropologia cristã e, por isso, a abordagem clínica pode ser tornar
incompatível com a fé cristã", pondera.
"Visões diferentes nas antropologias geram
fundamentos éticos e valores de vida diferentes. O psicólogo não deve fazer
proselitismo religioso em seu ambiente de trabalho, mas, mesmo sem essa
prática, ele pode ir contra o padrão de vida que a Bíblia orienta para seus
seguidores."
É uma questão permeada por valores. O pastor lembra
que muitas vezes aquilo que é "normal ou natural" para a psicologia,
é "pecado" para os religiosos.
Então, ele argumenta que o profissional da
psicologia pode acabar "incentivando" o paciente "a fazer coisas
que a Bíblia proíbe".
Para a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves,
autora do livro Eu Fractal - Conheça-te a Ti Mesmo, não deveria
haver motivos para essa dificuldade de conciliação.
"A psicoterapia é um processo de ampliação de
autoconhecimento. Quando a pessoa está segura em sua fé religiosa, não há
incompatibilidade, ou seja, a psicoterapia não interfere na fé, nem a fé impede
o processo terapêutico", diz Breves.
"A verdadeira incompatibilidade surge quando a
pessoa não dispõe de abertura para se implicar no próprio processo, o que não
tem relação com religião, mas com a disponibilidade interna necessária para que
a terapia aconteça."
Embora o processo terapêutico leve a pessoa a
confrontar seus valores, isso não cria incompatibilidade, defende a psicóloga.
"A fé não impede o questionamento, pelo
contrário. Quando alguém pode interrogar a própria fé e, ainda assim,
reconhecer que ela permanece, a fé se fortalece", diz Breves.
"O questionamento não a enfraquece, a torna
mais consciente. E é justamente nesse movimento que o equilíbrio se torna
possível."
Cristão pode fazer terapia?
Para o teólogo e historiador Gerson Leite de
Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a dificuldade de
conciliação entre psicologia e religião está em uma suposta concorrência entre
ambos.
"Os líderes religiosos que querem combater a
psicanálise e a Psicologia estão lutando por uma reserva de mercado. Eles
querem ter o direito de ser os conselheiros espirituais dessas pessoas. Para
isso, demonizam a psicologia."
Moraes pontua que essa leitura é comum a segmentos
teológicos fundamentalistas, quando o pastor tende a orientar que a solução
para qualquer problema "está na Bíblia".
"Eles transformaram a Bíblia em um livro
mágico. E a Bíblia não é isso. Mas isso funciona no campo subjetivo para
eles", critica o teólogo.
"Há esferas de atuação. Padres e pastores
podem continuar orientando seus fiéis, mas isso é em aliança, sem nenhuma
incompatibilidade com outras formas de tratamento. Deve se desejar a melhora do
fiel."
O pastor Pamplona não concorda com religiosos que
dizem que "cristão não deve fazer terapia", embora reconheça que seja
uma visão que esteja "ganhando adeptos" ultimamente.
Para ele, esse tipo de pregação revela
"ignorância geral sobre o tema da saúde mental".
O religioso explica que a confusão se dá por conta
de uma doutrina cristã chamada de "suficiência das Escrituras".
Tal entendimento advoga que a Bíblia seria
suficiente para lidar com tudo o que tange ao ser humano.
Pamplona acredita que a interpretação correta é que
o livro sagrado resolve tudo o que é "suficiente para a salvação" do
ser humano, mas não os problemas desses em sua totalidade.
"É claro que a Bíblia tem princípios que
norteiam toda nossa vida, mas, quando precisamos de ajuda profissional
especializada, procuramos por médicos, dentistas, psicólogos ou qualquer outro
profissional", diz o pastor.
"Portanto, fazer uso da psicologia ou da
medicina não significa ser contra a suficiência das escrituras, pois a Bíblia
nunca se propôs a ser um manual médico ou de psicologia. Novamente, essas
coisas podem se complementar."
Há um efeito colateral desse entendimento
restritivo, afirma o pastor. Muitos cristãos que precisam recorrer a
tratamentos psicoterapêuticos acabam se sentindo culpados por fazerem isto. De
certa forma, isso deixa seu fardo ainda maior.
A escritora Magali Leoto, integrante da associação
Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, diz que a crença de quem professa
essa fé não pode fazer terapia é compartilhada por alguns grupos religiosos.
"Mas é importante entender que psicologia é
uma ciência e tem critérios técnicos para embasar suas práticas e
conclusões", afirma Leoto, que é missionária na Igreja Batista de Água
Branca e na Igreja Batista Memorial de Alphaville.
Terapeutas cristãos
Na psicologia, há um vasto campo daqueles que são
assumidamente cristãos.
Professor na Faculdade São Basílio Magno, o
psicólogo Pierre Patrick Pires é fundador da empresa Atos 20, uma consultoria
de psicologia especializada em tratar saúde mental em contextos religiosos,
especialmente no meio católico.
Para ele, psicologia e fé precisam ser
compreendidas "como campos distintos, mas não opostos". A primeira
seria uma ciência voltada a um compromisso ético e ao cuidado da saúde mental.
Já a outra está interessada no sentido da vida e na espiritualidade.
"A psicologia não precisa negar a fé para ser
científica. Nem a fé precisa negar a psicologia para ser autêntica",
resume Pires.
Na visão dele, a psicoterapia precisa
"acolher" a religiosidade do paciente "como parte de sua
história e identidade". Sem induzi-la. Aí reside um "diálogo ético no
processo clínico".
"As incompatibilidades surgem quando há
confusão das funções. A psicologia deixa de ser ética quando ela tenta
substituir a religião e impor valores morais e doutrinários", diz Pires.
"Da mesma forma, a fé se fragiliza quando
tenta negar a subjetividade humana, o sofrimento psíquico, os processos
mentais, e substituir o cuidado psicológico com respostas exclusivamente
espirituais."
O psicólogo diz que um discurso que demoniza a
psicologia "é preocupante", porque pode "gerar culpa,
silenciamento no sofrimento psíquico e atraso para buscar uma ajuda
profissional diante da necessidade".
Por conta disso, muitos acabam encarando o
sofrimento psicológico como "fracasso espiritual", explica Pires.
Em sua dissertação de mestrado na Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, a psicóloga Andréia Aparecida de Melo
Coliath concluiu que, em geral, pessoas cristãs preferem profissionais de
psicologia também cristãos.
Compartilhar do mesmo universo de referências
conferiria uma maior garantia de respeito por suas experiências religiosas,
suas crenças e os significados que isso tudo tem para sua existência.
Pires não acha relevante que um cristão procure um
profissional que seja necessariamente também cristão.
"O critério deve ser a formação, a competência
técnica e o compromisso ético desse profissional. Sendo cristão ou não, um
psicólogo tem o compromisso de respeitar a singularidade de cada paciente."
O pastor Mérlinton de Oliveira é psicólogo e
teólogo e tem visão semelhante. "Se um cristão encontra um profissional
assim, ético, mesmo não sendo também um cristão como ele, será bem acolhido em
sua pessoalidade", analisa Oliveira.
Para Oliveira, a terapia "é compatível com as
experiências espirituais e religiosas".
"Uma condição psicoemocional saudável e
equilibrada é essencial para a devida experiência religiosa saudável, bem como
uma experiência saudável é uma prática que colabora com um bem-estar
psicoemocional", diz Oliveira, que é professor na Faculdade Adventista do
Paraná,
Cada prática tem seus próprios métodos, ressalta o
pastor. "Enquanto a prática religiosa é exercida sob a perspectiva da fé,
dos ritos sacros, da relação transcendental, do uso de escritos sagrados, entre
outras, a prática terapêutica se dá sob a perspectiva das técnicas científicas,
do uso de instrumentos elaborados e validados humanamente, de elaborações
teóricas desenvolvidas ao longo do tempo, entre outras."
Ele defende que a psicologia e a fé são
complementares. "Contudo, é necessário ter prudência para que uma prática
não diminua a importância da outra, afinal, embora possam ter metodologias
próprias, ao final ambas atuam visando a um objeto em comum, o ser
humano", afirma Oliveira.
Ele lembra que, em um encontro terapêutico, se
houver formas distintas de ver a vida e o mundo, o código de ética da profissão
ensina que "o terapeuta deve respeitar a realidade do seu cliente".
Para ele, isso "deveria tranquilizar um cristão ao buscar esse
profissional".
A psicóloga e missionária Leoto afirma que ela e
seus colegas "têm enfrentado" dificuldades dentro da sua profissão.
Ela comenta que a relação com o Conselho Federal de Psicologia e os
profissionais cristãos é de "um equilíbrio institucional".
"Mas algumas controvérsias têm acontecido. Em
alguns momentos, as normas dos conselho podem ser interpretadas como
limitadoras", diz Leoto.
Por exemplo, temos como regra que não podemos
manifestar publicamente nossa fé em redes sociais. Se eu mostrar que sou uma
psicóloga cristã, alguém pode me denunciar."
Mas, na prática, ela vê mais convergência do que
divergência entre uma coisa e outra.
"Tanto a psicologia quanto a fé bíblica se
encontram em alguns sentidos e alguns movimentos e algumas interfaces",
argumenta Leoto.
Para ela, se a psicologia "está em busca do
sentido e da compreensão do ser humano" e "Deus é quem criou o ser
humano e conhece todo o potencial do ser humano", esta intersecção é
inevitável. "A psicologia não descobriu a roda", comenta.
"Muito do que eu aprendi na faculdade, muitos
conceitos, já estavam na Bíblia. E aparecem no meu dia a dia, na prática da
terapia", diz ela, pontuando que tanto a Psicologia quanto a fé
"trazem esperança e caminhos, inclusive metodológicos, para a restauração
e a ressignificação de conflitos e problemas".
Ela defende ser preciso cuidado para que o
atendimento não seja enviesado. "Ética bíblica e ética psicológica se
complementam, mas não podem se confundir", afirma.
A psicóloga e missionária Leoto entende que, na
hora de lidar com um paciente angustiado, por exemplo, a abordagem precisa
entendê-lo "como um ser espiritual". Este é seu ponto de partida.
Ela recorre a um conceito conhecido como metanoia
para exemplificar isso. O termo, de origem grega, significa uma mudança radical
de mentalidade. Leoto lembra que é uma questão bíblica — no sentido de
conversão, de arrependimento, etc. — e também um processo abordado na terapia,
quando se promove a reorganização e a ressignificação.
"O próprio evangelho já é uma metanoia",
afirma ela, frisando que Jesus trouxe, a quem acredita, uma nova narrativa de
salvação.
De cristão para cristão
A recomendação do bispo Walter McAlister de que um
cristão procure um terapeuta cristão é muito comum.
Pamplona, por exemplo, diz que "entende esse
conselho" e gosta dele. "O cristão se sente mais seguro em ter outro
cristão como terapeuta por acreditar que será mais fácil ter o mesmo tipo de
antropologia e de não ouvir ideias e orientações contrárias à sua fé",
argumenta.
"Preciso dizer que hoje em dia há muitos
psicólogos anticristãos, que falam contra a fé e até mesmo colocam a culpa da
falta de saúde mental na religião", critica ele.
"Há muitas ideias estranhas e não
profissionais circulando em ambientes da psicoterapia. Eu mesmo gostaria de ter
um psicólogo evangélico. Me sentiria mais seguro para tratar da minha vida e de
coisas íntimas da minha vida."
Mas ele acredita que um bom psicólogo, mesmo não
sendo cristão ou evangélico, saberá criar um ambiente seguro e guiar a terapia
de forma equilibrada com um paciente cristão.
"Por isso meu conselho principal não é o
psicólogo cristão, mas sim um bom psicólogo de confiança. Se ele for cristão,
acho melhor, mas não como uma regra que não pode ser quebrada."
Leoto entende que o tema "merece análise
cuidadosa", embora "limite a escolha". "A crença religiosa
não é necessária para o processo de terapia", diz ela.
"Um terapeuta que não é cristão vai respeitar
e integrar a fé do paciente em suas sessões, assim como quem é cristão precisa
respeitar quem não é."
Por outro lado, a psicóloga e missionária entende
que uma base religiosa comum seja aliada na hora de debater os "pilares
morais, éticos e valores pessoais no contexto de um set terapêutico".
"A psicoterapia é espaço seguro para que o
paciente possa explorar suas crenças, fazer reflexões e reavaliar suas posições
sobre temas que o façam sofrer, que são desafiadores. Por exemplo, o
aborto."
Ela explica que um paciente que "vem para a
terapia" com sentimentos conflitantes sobre tal tema, em geral parte dos
valores e crenças religiosas.
"A psicoterapia também ajuda o paciente a
refletir e discutir como as doutrinas religiosas influenciam suas opiniões e
decisões", acrescenta.
Conciliar religião e psicologia é uma seara que
parece tênue, uma vez que, em um ambiente terapêutico em geral, o paciente se
confronta com seus pilares morais, éticos e valores que muitas vezes se
misturam com fé.
"Por isso, a relação entre a fé cristã e as
psicoterapias não é tão simples", comenta.
"É por isso que nossa resposta não pode ser
'não pode' ou 'pode tudo'. Por outro lado, equilibrar é possível. Todo cristão
precisa aprender os fundamentos de sua fé."
Ele defende que os evangélicos tenham um
"filtro bíblico" na hora de escolher terapia e terapeuta.
"E esse filtro vem pelo conhecimento que temos
da Bíblia. Como a Bíblia entende o homem, sua condição de pecado, seu propósito
de vida, sua salvação, sua esperança, seu chamado para ser como Jesus. Como a
Bíblia fala da mente? Quais valores guiam a vida cristã?", afirma.
"Quando o cristão conhece a sua própria fé,
ele está mais apto para procurar por ajuda psicológica de maneira mais
equilibrada."
Conselho de Psicologia não reconhece o termo
'psicólogo cristão'
A proposta de uma frente parlamentar no Senado para
defender que psicólogos possam exercer sua religiosidade no âmbito profissional
argumenta que isso é uma proteção à "liberdade de consciência, de crença e
de manifestação religiosa".
Segundo o texto em consulta pública, tal frente
parlamentar deveria "promover o reconhecimento de que a religiosidade
constitui dimensão integrante da identidade do indivíduo".
A argumentação coloca conselhos profissionais e
órgãos reguladores na posição daqueles que restringem "indevidamente
direitos fundamentais".
O senador Magno Malta diz no texto da proposta que
"há registros concretos de psicólogos cristãos que vêm sendo notificados
por Conselhos Regionais de Psicologia, submetidos à assinatura de termos de
ajustamento de conduta e respondendo a processos ético-disciplinares
simplesmente por manifestarem sua fé em ambientes pessoais ou de comunicação
pública, como redes sociais, biografias profissionais ou participação em
atividades religiosas".
"Em diversos casos, tais procedimentos não
decorrem de condutas técnicas inadequadas no exercício da profissão, mas
exclusivamente da identificação do profissional como cristão, da exposição de
símbolos religiosos ou da expressão de valores pessoais", prossegue o
senador.
"Isso evidencia um preocupante desvio de
finalidade no uso do poder regulamentar e um cenário de constrangimento
institucional que afeta diretamente o livre exercício profissional."
O Conselho Federal de Psicologia diz que "tem
acompanhado com atenção os debates públicos que emergem nas redes sociais e em
outros meios de comunicação" que "tangenciam a relação entre
religiosidade, fé e a prática profissional da Psicologia".
Sobre os conteúdos que propagam a ideia de que
cristãos não deveriam fazer terapia ou não deveriam ter um terapeuta que também
não fosse cristão, o conselho diz que "reitera o compromisso da ciência
psicológica com a laicidade do Estado".
Além disso, frisa que tem "compromisso com a
promoção de uma prática psicológica que respeite a diversidade de crenças e
convicções individuais".
Segundo a instituição, o psicólogo deve, em sua
atuação "empregar exclusivamente princípios, conhecimentos e técnicas
reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação
profissional". E, ao fazê-lo, "devem considerar a laicidade como
pressuposto".
"A Psicologia reconhece que a religião e a fé
são fenômenos presentes na cultura e que participam da constituição da dimensão
subjetiva de cada um. A relação das pessoas com o 'sagrado' pode e deve ser
objeto de escuta e acolhimento pelo profissional, mas, e isso é crucial, nunca
imposto aos pacientes", argumenta o conselho.
Por fim, afirma que misturar fé com terapia
"revela um desconhecimento sobre a natureza da prática psicológica ética e
científica" e que, por meio de resolução de 2023, são vedadas
"práticas que misturam fé e ciência de forma indevida".
Por exemplo, nenhum psicólogo pode se apresentar
como "psicólogo cristão", salienta o órgão — que destaca reconhecer
especialidades, mas que "Psicologia cristã não é uma delas".
"Associar o título profissional a uma vertente
religiosa pode levar à crença equivocada de que a prática é exclusivista ou
baseada em dogmas, o que contraria a universalidade e a laicidade da ciência
psicológica."
(Fonte:
BBC)

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